Manhã, tão bonita manhã.

É uma manhã insuportável, como todas as outras - a diferença que essa é uma manhã insuportável de domingo, o que a torna mais insuportável ainda. Manhãs de domingo me cheiram à pecado. Pecado e redenção: incautos  lotam igrejas e quaisquer estabelecimentos que prometam salvação dessa vida medíocre. Eu assisto, apenas. Minha redenção é o copo de vinho - tomai todos e bebei - que me faz esquecer desse domingo e dessa coisa toda que eu vejo pela janela e não participo. Dessa missa que não comungo, desse culto à qualquer coisa que pareça "boa". Acordo cedo justamente para poder passar o dia inteiro reclamando da vida, do preço do cigarro, das condições análogas em que me encontro, das minhas impossibilidades, da falta de alguém para quem eu possa dizer "caia fora da minha vida". Aí me surgem os de sempre, os testemunhas de jeová, que perguntam se conheço a palavra de deus. Se quero ser salvo. E aí pergunto se eles tem um maldito diazepam, porque a vida anda complicada e essa crise de sentir o mundo tem afetado, inclusive, minha vontade de beber. Eles se assustam, se incomodam, dizem que há uma única verdade, um único caminho e penso "sim, o caminho da minha cama". Dou as costas e os deixo sozinhos, não me interessa o que falem nessa manhã pecadora e insuportável de domingo. Volto pra cama, mas, por deus, é preciso ligar esse maldito som, porque sem música tudo fica pior ainda. É uma rádio, uma dessas rádios imbecis, com músicas imbecis, com gente imbecil e um timbre de voz mais imbecil ainda. Mas toca aquela música: dói em mim saber que a solidão existe e insiste no teu coração... Penso que a babaquice cresce igual formiga nesse mundo, e são resistentes - as formigas e os babacas. Por isso não sei onde tudo vai parar e odiaria o mundo muito mais, se isso não atacasse minha gastrite. O que me alivia é saber que ainda tem bastante vinho na garrafa, que hoje é um maldito domingo e que não precisarei fazer absolutamente nada. Até você chegar e destruir minha vida. Até você chegar e vir com esse papo de que está tudo bem, de que somos um casal lindo, de que vai ficar hoje comigo e eu acredito, eu sempre acredito até o momento em que é você quem diz "caia fora da minha vida" e eu fico devendo essa pra mim mesmo. Fico pensando quando será "a minha vez", mas nunca acontecerá, porque quando penso em te mandar à puta que pariu, você volta com esse jeito doentio, me trazendo uísque e um lucky strike (meu deus, como anda caro!) aí eu preciso aceitar, aceito e até penso que realmente nos damos bem, que nos gostamos, que você nem é tão filhadaputa, ou sou eu, também, muito filhodaputa. Mas você não chega, nem chegará, porque está por aí, se divertindo com qualquer cara, ou qualquer garota, isso há muito tempo, quantos anos fazem? tanto faz. O que importa é que te sinto tão próxima, me importunando tanto, que nem consigo te mandar embora, porque você já faz parte de mim, como a maldita dor de cabeça, a gastrite e o que nomeamos amor-próprio.

Móvel.

Depois de um longo dia de trabalho, chego em casa e me encontro no espelho, nos móveis dispostos pela sala, no uísque - ainda sobre o sofá - que me faz relembrar a noite passada. Vejo, com certa satisfação, que tenho uma vida que, apesar de miserável, ainda não é completamente desastrosa. Então me sento no sofá que ainda não terminei de pagar. Não que tenha sido caro, penso - em tom de desculpa, mas é que tudo andou muito difícil e eu precisava ter às pressas algum móvel que estivesse além da média ordinária, para quando recebesse visitas elas reparassem no quanto parece que minha vida anda melhorando. Por conta disso, fiz questão de pintar a sala, trocar os móveis, e pôr um espelho na parede que dá de frente para a porta: sim, quando se entra em minha casa a primeira impressão é a de que estamos revelando nossos íntimos, nos expondo. Alguns, ao abrir a porta e se verem no espelho, se recusam a entrar e dizem, simplesmente, "preciso ir", com aquele nó na garganta, típico das pessoas que nunca prestam atenção em si mesmas. Não importa. Quando chego, após me olhar no espelho, me sento no sofá, alcanço o copo de uísque e a garrafa - lembranças, sempre, da noite anterior - e me ponho a pensar nessa vida ordinária que levo. Não casei. Não escrevi livro. Não plantei árvores. Em compensação bebi demais, menti muito e fui amante de mulheres da vida. Enquanto penso - e muito penso: no trabalho de hoje e de todos os dias, esse trabalho de merda, mas que me garante um certo dinheiro, no trânsito parado, nas pessoas que estão sobrando no mundo - aqui, nesse sofá, que dá de frente pra sacada, a mesma sacada a qual já quis que fosse a minha algoz, a sacada que está sempre aberta e me permite que eu vá até ela e que rompa o espaço e tente voar, a qualquer momento da minha noite (afinal, durante o dia é preciso trabalhar), nesse sofá de couro, que custou mais da metade do meu salário, sofá que combina com as cores da parede, do abajur, nesse sofá onde realizo meu rito diário de sentar, preparar minha homilia de pensamentos sobre o dia, onde me sirvo dessa bebida única e redentora, nesse sofá de três lugares, em que me sento, todos os dias, no assento do meio, porque me dá a visão do apartamento da Marcela, aquela que sempre amei em segredo, mas que é uma completa idiota, aqui, nesse sofá, vejo Cristina se aproximar. Cristina vem tão negra como a noite lá fora. Ela se escora um tanto na parede, e vem, dengosa, aninhar-se no meu colo. Isso não acontece todos os dias. Às vezes ela fica, também, na sacada, a olhar para a vida, a pensar não sei no quê, e eu nunca saberei o que ela pensa - a gente nunca sabe, de fato - Cristina se aninha em mim, respira tão profundamente sempre e está calada. Dispenso o copo de uísque, dedico meus carinhos à ela e canto, lentamente: mansidão no peito trazendo o respeito que eu queria tanto derrubar de vez... pra ser teu, talvez. Pra ser teu, talvez... Enquanto isso, olho para o apartamento de Marcela, de luzes apagadas, de placa escrita "aluga-se" e penso que a vida poderia ser mansa, como um gato de casa, para que eu pudesse afagá-la, como afago agora Cristina. Dormirei aqui no sofá, como todos os dias, sem mesmo tirar a roupa de trabalho, e tentando sonhar... E quebrar as cercas que insistimos tanto em nos defender...