Novo

E, de novo, sou eu aqui. Lutando contra as formigas que se proliferam, vindas dos subterrâneos (talvez de mim mesmo?). Sou eu aqui, de novo, amargando a tua ausência enquanto tropeço nos móveis tentando desviar deles (ou de você?). Sou eu, tantas vezes, te procurando naquilo em que você não está: um segundo prato sujo, um copo a mais, e mesmo duas cadeiras (pra que, se como em pé?), um par, aquilo que não somos. Na louça suja à deriva na pia; nos ciscos cotidianos que invadem a casa, de janelas sempre abertas (virá como o vento?); na poeira que trago da rua ao entrar calçado em casa: não habitas na minha sujeira. Mas também nas plantas que cultivo (mesmo as de plástico?); no lençol lavado, limpo de véspera; no cheiro doce de almíscar, que se espalha pela casa: não apareces na minha paz. 
De novo, aqui, só eu: o sentimento guardado, o trago já de eras; A espera, tantas vezes anunciada e sentida, escondo nas gavetas bagunçadas; teu gosto, tua cor, aquilo que te falta: eu já o pressentia. Eu, só: mas também você.
Apesar desse conjugado (qual verbo conjugaríamos?) de quarto e sala; afora os 28m2; tudo indica que me sobra espaços (cá dentro eu poderia te perder?), os quais preencho com caixas, todas vazias, onde guardo também o amor ainda com cheiro de novo. Eu, de novo. Aqui: em mim.

Alento

Caminhava pelas indelicadas ruas de Cuiabá. Há pouco chovera. As poças refletiam o mormaço de um dia comum. Pulava os buracos, vestia aquela velha camiseta do radiohead e ouvia o trânsito lento e pesado da capital. Ia para algum lugar. Precisava reencontrar os adjetivos, as práticas cotidianas que lhe parecessem caras, a forma de enfrentar problemas. 
Ouvia sempre algo novo e prendia o cabelo de uma maneira que estava no limiar entre o desleixo e a beleza erudita. Sonhava, desde cedo, com democracias e direitos iguais. Tinha uma daquelas alpergatas manchadas pelo tempo e amava as flores que cresciam, irregulares, pelos canteiros mal cuidados. Era sempre dona de si, com sua bolsa a tira colo e seus óculos escuros, um ar experiente e um medo de futuros.
Quando nos encontrávamos, me pedia que eu enviasse depois aquele poema da Cecília Meireles, porque "não lembrava o nome", mas tinha "achado bonito". Era sempre o mesmo jeito de segurar o cigarro e de falar de algumas tristezas banais. Sempre um préstimo, sempre um lenitivo, via a existência como um rio, caudaloso em alguns pontos, estreito em outros, desbravando espaços, rompendo cercanias. 
Contava-me sempre, com ar de poesia, sobre coisas que pareciam banais: "diásporas das nuvens", "balé das folhas", "ranzinzas ruas". Mas também falava de amor. Como amam os homens e as mulheres, como são belas as palavras quando ditas pelos amantes, como acaba o amor, para recomeçar em todos os lugares. Assumia um tom grave quando falava dos seus amores. Suas experiências românticas, pausadamente relatadas, olhos buscando as lembranças, gesto que eu admirava encantado: o amor para ela nunca fora senão uma tentativa, um evento em que participava mas que sabia que hora ou outra acabaria - e tudo bem.
Eram breves os encontros, e ela se despedia com um sorriso de acaso. Ia para algum lugar, sempre estava indo. E eu não me atrevia a perguntar "para onde?", pois intimamente sabia a resposta: atrás de ser feliz. Marcávamos de nos encontrar, mais por força de hábito do que por interesse. E sempre nos víamos por sorte do destino, nas mesmas ruas esburacadas da cidade.
Nunca mais nos vimos, nem sei por onde andas. Se um dia leres essa prosa, saibas que agora sou eu quem ando pelas indelicadas ruas, pulando buracos, ouvindo o trânsito lento e pesado. E aquele poema da Cecília ainda guardo, mas agora na memória: Ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.