Alento

Caminhava pelas indelicadas ruas de Cuiabá. Há pouco chovera. As poças refletiam o mormaço de um dia comum. Pulava os buracos, vestia aquela velha camiseta do radiohead e ouvia o trânsito lento e pesado da capital. Ia para algum lugar. Precisava reencontrar os adjetivos, as práticas cotidianas que lhe parecessem caras, a forma de enfrentar problemas. 
Ouvia sempre algo novo e prendia o cabelo de uma maneira que estava no limiar entre o desleixo e a beleza erudita. Sonhava, desde cedo, com democracias e direitos iguais. Tinha uma daquelas alpergatas manchadas pelo tempo e amava as flores que cresciam, irregulares, pelos canteiros mal cuidados. Era sempre dona de si, com sua bolsa a tira colo e seus óculos escuros, um ar experiente e um medo de futuros.
Quando nos encontrávamos, me pedia que eu enviasse depois aquele poema da Cecília Meireles, porque "não lembrava o nome", mas tinha "achado bonito". Era sempre o mesmo jeito de segurar o cigarro e de falar de algumas tristezas banais. Sempre um préstimo, sempre um lenitivo, via a existência como um rio, caudaloso em alguns pontos, estreito em outros, desbravando espaços, rompendo cercanias. 
Contava-me sempre, com ar de poesia, sobre coisas que pareciam banais: "diásporas das nuvens", "balé das folhas", "ranzinzas ruas". Mas também falava de amor. Como amam os homens e as mulheres, como são belas as palavras quando ditas pelos amantes, como acaba o amor, para recomeçar em todos os lugares. Assumia um tom grave quando falava dos seus amores. Suas experiências românticas, pausadamente relatadas, olhos buscando as lembranças, gesto que eu admirava encantado: o amor para ela nunca fora senão uma tentativa, um evento em que participava mas que sabia que hora ou outra acabaria - e tudo bem.
Eram breves os encontros, e ela se despedia com um sorriso de acaso. Ia para algum lugar, sempre estava indo. E eu não me atrevia a perguntar "para onde?", pois intimamente sabia a resposta: atrás de ser feliz. Marcávamos de nos encontrar, mais por força de hábito do que por interesse. E sempre nos víamos por sorte do destino, nas mesmas ruas esburacadas da cidade.
Nunca mais nos vimos, nem sei por onde andas. Se um dia leres essa prosa, saibas que agora sou eu quem ando pelas indelicadas ruas, pulando buracos, ouvindo o trânsito lento e pesado. E aquele poema da Cecília ainda guardo, mas agora na memória: Ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.