Amanhã

E amanhã, me pergunta, e eu te respondo não sei do amanhã lembra aquela música da Simone né aquela o que será do amanhã responda quem puder, sei lá, não conhece Simone, acho tudo um grande saco, mas, de verdade, não sei o que faremos amanhã, eu tenho uma ideia, então fala, espera, espero, amanhã é outro dia, podemos fazer outra coisa, fechado, embora eu pense que essa outra coisa não é muito certa, concordo, concordamos aí que tá o problema, não acha, eu te pergunto, e você não responde porque tá olhando pro futuro, como sempre faz, eu só querendo saber do agora, dessa coisa misteriosa e implacável que se chama agora, por que tá olhando tanto pra lá, eu te pergunto, e você não responde, mudo se precisar, não, não precisa, amanhã a gente vê isso, pode ser, me pergunta, e eu faço aquela coisa de responder afirmativamente com a cabeça, coisa que você odeia, eu sei, porque tudo precisa ser dito, é verdade, mas eu gosto do interdito, do pecado e do tabu e somos, o que, você interrompe, somos esses continentes separados por esse grande oceano chamado comunicação, você que tá dizendo, você diz sempre tentando mostrar que tá me ouvindo, mas eu tô, embora não esteja, e nesse oceano tem peixe, brinca, e eu respondo nesse oceano tem um tanto de coisas indecifráveis, você não sabe nadar, eu não sei mesmo fico aqui na beira da praia olhando isso tudo te vendo do outro lado, cauteloso, você diz, sim cautela não gosto muito dessa coisa de tentar entrar fundo nas coisas, eu te disse, o que, te pergunto, e você responde que entra de cabeça em tudo e o que mais quer é nadar mesmo pra ver se refresca um pouco se alivia esse calor essa coisa, e eu só aceno com a cabeça, e você me irrita sempre com isso, eu sei, eu digo, e você continua dizendo explanando que o seu grande lance é nadar em águas profundas, você vai acabar se afogando uma hora, eu sei, então por que não repensa isso, eu não sei, aliás, aliás o que, você me pergunta, aliás, já tá ficando tarde, então tá bom, está na hora de você ir, eu vou mesmo, mas espera, não posso, você diz, só um pouco, eu te digo, você me disse, o que eu te disse, te pergunto, mas você vira as costas e vai saindo e eu te pedindo pra ficar pedindo calma mas você nem se alterou não é, te pergunto, não, responde sem responder, não, pergunto, talvez, você enfim responde e já não sei exatamente o que fazer com essa tua resposta a não ser ficar desse lado do oceano comunicativo tentando ver se arranjo um jeito de fazer uma pequena embarcação mas  você já vai longe, quem sabe eu volto uma hora, você diz, quem sabe eu entre fundo nessa coisa que você disse, no nós dois, eu interrompo mas você já tá distante e será mesmo que foi isso que quis dizer eu penso e canto e fico aqui comigo mesmo pensando o que será do amanhã.

Véspera de Natal

Era véspera de natal. Ele caminhava solitário pela rua, e realmente o que queria era ver-se invisível. Lembrou-se do natal na sua infância: presentes, risadas, espera pelo papai Noel. Agora, ele já tinha feito uns bicos como papai Noel. “Não sou mais um moleque” – pensava – enquanto ia pela rua. Conhecia toda a vizinhança, e tinha medo de ser notado. “Com certeza desejarão bom natal, e perguntarão como anda minha saúde” – dizia – enquanto andava. 

Robério Magalhães era um homem de poucos bens: tinha um sobrado rústico na Comandante Costa, casa que foi deixada de herança por sua tia, que o acolheu desde sua chegada. Vivia com um primo de seus 30 anos, e era professor aposentado do Estado. Não tinha mulher, embora fosse casado algumas vezes, mas filhos tinha: Era um casal. O filho estava pro interior, tentando a vida por lá. A filha fazia faculdade ainda, na área de pedagogia, e logo se formaria. O primo de Robério não existia, era inteligente, e nada esforçado; tinha mesmo era sorte na vida. Tinham uma boa vida, até: Robério e o primo de 30 anos inventado e usado como desculpa para qualquer coisa por Robério. Claro, não viviam como queriam, mas dava pra viver razoavelmente bem. Robério, ao contrário de seu primo (e para Robério seu primo era o pecado que não merecia redenção. Era o escape, o erro, a poesia) teve que estudar muito pra conseguir se formar e ter aquele emprego de professor. Formara-se em Matemática, tentou uma pós graduação – sem sucesso – mas conseguiu passar num concurso para dar aulas para o ensino médio. Robério gostava de ser professor, era dedicado, não faltava, explicava bem e alguns alunos gostavam dele. Sempre quis lecionar em alguma faculdade famosa e ser reconhecido, mas esse sonho não se realizou. Quase nenhum sonho se realizou, a não ser o de ter uma casa própria, mesmo que fosse doada de herança pela tia que não tinha filhos. 

Era véspera de natal. Ele caminhava solitário pela rua, e realmente o que queria era ver-se invisível. Robério Magalhães odiava o natal: perdera a mulher que amava e a vontade de viver em um dos natais, há muito tempo atrás. Ele conseguiu se recuperar, investindo no estudo. Robério tornou-se um cara racional demais. E, por ser racional demais, não conseguia compreender certas coisas da vida. E, por ser racional demais e não compreender certas coisas da vida, é que Robério saiu de casa na noite do dia 24 de Dezembro. Caminhou pelo centro de Cuiabá, a velha Cuiabá que ele conhecia há mais de 15 anos, desde que viera do interior do Sul, assim como muita gente. Robério estava cansado. Naquele dia sentiu-se mal, lembrou-se das mulheres com quem fora casado, e lembrou-se especialmente de uma: A bela jovem por quem se apaixonou e que, por motivos que não podem ser explicados, matou no dia do natal. Ela tirou sua vontade de viver, depois que ele a iludiu. Ele tirou a vida dela, enquanto continuava a se iludir. Robério, agora sentado na praça Alencastro, ouviu nos prédios a felicidade, os risos, a comemoração da ceia. Tinha muito medo de ser notado ali, porque as pessoas perguntariam como andava sua frágil saúde, principalmente hoje, que não tinha tomado seus remédios pra pressão e ficava estampado na cara que não estava bem. Era o dia do natal. Robério sentou-se no coreto da praça, que abrigava um presépio. Ele nem se importava com presépios ou questões religiosas. Há muito tempo perdera o interesse pelas coisas. Robério, sentado, continuava pensando em Margarida. A mulher que mais amou, mas que fatalmente morreu afogada. Robério levantou-se e resolveu voltar para casa. Viu uma estrela cadente e deu um riso disfarçado, canto de boca. No fundo ele fez um pedido, mas não achava que se realizaria. Quase nenhum sonho se realizou, a não ser o de ter uma casa própria, herança de uma tia que o acolheu bem. E esse não veio com estrelas cadentes porque, aliás, estava velho para crendices. Robério chegou em casa e não encontrou seu primo. Foi direto para o quarto. No criado mudo, pegou os remédios. Foi ao banheiro e despejou os comprimidos pra pressão na privada, dando descarga logo em seguida. Sentiu-se mais aliviado. Voltou para o quarto e relembrou Margarida e sua morte fatal; lembrou-se dos filhos que estavam pelo mundo e lembrou-se da vida que vivera até aquele momento. Robério estava cansado. Naquele dia ele se sentiu mal, não conseguiu dormir. No criado mudo, abriu a última gaveta. Nela estava o retrato de Margarida (a mesma Margarida que viu partir, dizendo que não aguentava mais aquela situação. A mesma Margarida que o abandonou, que foi não se sabe pra onde e que talvez estivesse viva. Ou morta.), e um velho revólver: um dos poucos bens valiosos de Robério. Foi até a janela, olhou bem para o retrato e lembrou-se do incidente que havia causado. Apanhou o revólver e o atirou pela janela; não gostava de armas de fogo. Robério, com o retrato de Margarida, atirou-se, de cabeça, pela janela do quarto, que ficava no primeiro andar. Estava cansado. Naquele dia, não queria mais sentir nada. Dormiu um sono que não permitia sonhos.