essa chuva atravessando nossa janela fechada (algo de água sempre rompe nossa segurança, quando você chora, quando saliva com ódio, quando sua no sexo, sempre água rasgando o que a gente quer esconder) e esse vento acossando as árvores que gemem cansadas tortas de dor ou prazer? (e você dizendo que precisava partir, tinha que respirar, liberdade, gato, você dizia, e eu não, nesse tanto de oxigênio cabia nós dois, eu pensei, mas te faltava ar) e a gente nesse cubículo sem saber o que fazer com tanto desperdício de memórias das coisas que vivemos e não vivemos mais aqui nesse espaço de tempo e no intervalo de horas entre a permanência e a partida (eu sempre avesso ao fim, mais avesso ainda aos limiares: não gosto de nada raso, e vou sempre mais longe) e o que importa afinal senão essa tempestade essa crise e tantos trovões em mim e em você amenas ondas indo e vindo sem nunca estar (você sempre escultural, imensa, dona de si, um império in-des-ven-dá-vel) fora de mim
- ao longe ouço o alarido dos carros emergentes, sirenes, noite torrencial agigantando-se em mim, e o mundo e os entraves, filosofias, e eu sinto, como se crescesse em mim, todas as eras, e eu sou o próprio mundo nesse instante, derivando no espaço dessa cama, sobre esse lençol amarrotado -
o mundo anda um tédio, você desabafa. Levanta e sai. Maior que tudo isso, você não está aqui.