Tempo em dissonância

Não me pergunte as horas. Acabou minha bateria. Não ando com relógio. Não penso em nada que não seja em mim mesmo. Sei que é tarde para tantos assuntos (as palavras que dizemos cumprem seus horários: em algum momento, lá pelas tantas, quando desponta uma tímida claridade, as palavras tomam seus rumos, cada uma para dentro de nós e se encarceram as palavras, trancando nossa voz com o embargo da circunstância), para tantos acenos e acasos. Eu desejava (relembro agora ao atravessar esse tortuoso corredor do pensamento, que ora me trai ora me revela o brilhante punhal das memórias) olhar o mundo deliberadamente e encontrar no espaço do peito uma casamata em que nos abrigaríamos: mas estávamos atrasados, dentro disso que chamamos "um tempo para nós". Chegamos atrasados, alguns anos talvez, ao encontro dos olhares, às mãos que se confundiam em si mesmas. A boca pronunciando amor não entendemos: era outra língua, imperceptível movimento dos modos, era um gesto que ignoramos na manhã de canções que não ouvimos. Era preciso essa coisa que se dá nos apaixonados: a febre o riso a lágrima e solidão e saudade. Era preciso mais que um terno cotidiano de afetos e essa música que não nos diz respeito. Não saberei a hora certa de ir, assim como não sei a hora certa de ficar. Então não pergunte as horas: ando desligado, fora de mim, longe daqui. (No entanto ainda há em meus juncos, escondida sob a superfície que me voga o siso - nódoas de experiências - aquela claridade, o brilho tênue de uma manhã solene. Os planos que me adornam são feitos de chita, como também as pequenas tumbérgias que despontam no meu jardim). Não. Meu fuso é outro: minha carne vibra tal qual os ponteiros, sempre mecânicos, desse relógio que não trago comigo. Engulo meus movimentos, como um deus que tentasse acabar com os rebentos. Sou o que quer que seja, o outro, aquele que não está quando se pergunta por ele (Ainda tenho comigo aquele teu cheiro imperceptível, dos teus cabelos e do adeus que não demos. Carrego embrulhado em papel de pão tuas unhas pintadas de calmaria, tua boca e o riso de ontem). Foi preciso acontecer o que não se explica, o que dá na gente e não se sente: os olhares que não se cruzaram. Um leve movimento de pálpebras, um piscar, um brilho que não houve (o que sonho é opaco, o que vejo ofusca). Voltei para te buscar, perguntar sobre o céu "chove hoje?", mas já não era você. Talvez fosse eu. Talvez (uma pena desloca o ar: pesa sobre a mecânica das situações. Investigo minhas aspirações: já não sei quem sou).

Enquanto eu.

Primeiro, gostaria de dizer que não sei o que tô fazendo aqui. Acende um cigarro, mas não fuma. Vê o movimento sem rumo que a brasa em fogo liberaÉ noite, mas algo lhe diz que raramente tem sido tarde. Não "aqui", nesse 5m², paredes brancas, fumando meu cigarro que libera fumaça correndo feito mastins competidores, pois Ao longe vê-se Glória quando entardece o alaranjado é menos fugidio e tenho ganas de paz. Aqui ao qual me refiro é na vida. 
Quando teus olhos surgirem pensa enquanto vê escorregar pelo filtro um indeciso café marejando possibilidades de afeto e saudade, talvez eu descubra uma leve alternativa que me guie rumo a um objeto concreto, a um plano não de fuga, mas de permanência. Por enquanto apenas sigo como essa brasa, sendo consumida lentamente Enquanto olha para a brasa, talvez se lembre de algum fato, uma memória inventada, algo que lhe distrai. Mas não pense você que te espero. Não espero nada da vida, a não ser que ela jogue limpo comigo. Isso pode significar um monte de coisas, tenho certeza de que é isso que diria. É realmente isso que diria? Não sabe. Ou talvez finja que não saiba, já que quer assumir para si mesmo, a cada dia que passa, uma nova teoria.  
Sabe, lembrei daquela música que ouvimos esses tempos atrás. Não sei quem apresentou para quem, mas recordo daquela tentativa de correr atrás de coisas novas, coisa que éramos exímios. Eram, isso é verdade. O que aconteceu nesse ínterim? Enquanto escuto, penso que você poderia me visitar, sei lá, algum dia desses. Na verdade, ele gostaria que fosse logo, pois não quer ficar à beira do caminho, esperando Godot. Só não faça como no Esperando Godot, ou sei lá mais qual referência você pode se lembrar. Gostaria de acreditar nessa coisa de destino às vezes sabe. Ele acredita. Seria simples, era só estar atento e logo me aparecia o destino, um desenho nas nuvens dizendo "vai lá que é seu" e pronto, acho que assim imagino essa coisa de destino. Muita gente fala que o que é pra ser, será. Será? Será? Não sei bem, só sei que penso nisso e é outro cigarro que preciso acender, outra cerveja que preciso tomar. Enquanto não vem E receia que não venha nunca quem sabe eu não saia por aí, às avessas, rei de mim, para ver se encontro alguma moldura em que caibam minhas fotos futuras, registros forjados de felicidade. Sai de onde está, pega a toalha, decide se arrumar e sair. Para. Toalha nos ombros, olhar distante. Mas hoje, não. Hoje talvez não. Quem sabe esse destino exista mesmo? E se eu me arrebentar e quando ele chegar já estarei cansado demais? Sabe que, tudo que precisa, é de dormir um pouco. Apagar essa coisa toda que lhe atormenta. Hoje, não.