O ofício

Penso, com alguma frequência - enquanto tomo meu café na sacada do apartamento, oitavo andar, de paredes amarelas e que dá pro pôr-do-sol, que alaranja a sala, onde abrigo minhas plantas e onde tantas vezes estive ora irrequieto ora silencioso, obstinado por ideias as quais não se concretizariam, lançado tantas outras vezes a um tédio que ainda me traz uma vontade lancinante de me atirar pela janela - no escritor que não me tornei: venderia livros, seria convidado para fazer falas em auditórios, aqueles mesmos onde por diversas oportunidades estive ausente, porque preferia sempre o espaço aberto, a mesa do bar, ágoras contemporâneas.
E eu penso - evidente, pois sou um sujeito dotado de inteligência, sinapticamente preparado e cuja linguagem adquirida de milhares de anos me permitiu conhecer signos linguísticos e organizá-los de forma a transmitir uma mensagem coerente, mas que muitas vezes é prejudicada pelo contexto em que estou inserido, como esse de agora, em que escrevo com um discurso literário utilizando a metalinguagem - em que tipo de história eu saberia contar: talvez nenhuma, talvez essa, que não é bem uma história, mas um processo de fluxo de consciência, talvez alguma sobre amor e/ou ódio, talvez aquela que gostaria de ter vivido, a do escritor-que-dá-palestra.

Tudo isso enquanto me lembro da louça que precisa ser lavada, da roupa que precisa ser estendida, da bagunça que precisa ser guardada. Enquanto tomo meu café lancinante, enquanto atiro minhas ideias pela janela, enquanto planto os pés na memória frequentemente embaçada.

Que escritor eu seria, se escrevesse!