Como num filme

Rebobino a fita da memória. Já vivi um tanto de coisas, desse filme da minha vida conheço bem o roteiro: tem uns cenários, uma trilha sonora - quase sempre a mesma há tantos anos! -, tem umas falas que decorei e repeti a esmo, algumas improvisadas, é verdade, mas sempre falas num roteiro, trama complexa, confusa às vezes, cinema experimental. "Rebobino a fita", falo como alguém do século XX, como quem ouvia discos - alguns escondido - no Gradiente de casa. Como alguém que viveu os anos 90, sabe, como quem esperou o fim do mundo em dois mil assistindo MTV (no espelho do banheiro confirmo a realidade: já me aparecem fios de barba brancos, linhas de expressão, um cansaço próprio dos trinta mais...).

Mas então você surge. Surge, não: embora de surpresa, sinto que te procurava nas entrelinhas das músicas de Cazuza, parece que era para você que eu cantava - ouvindo o disco escondido, de olhos fechados - preciso dizer que te amo. Que a passagem para um trem para as estrelas foi comprada em nosso nome, antes que você surgisse. Surgisse, não: viesse, de surpresa, como se antecipasse sua chegada que há muito eu esperava. Como se eu, sendo diretor do filme da minha vida, te escalasse pro papel principal, o desfecho adequado pra uma história confusa às vezes, experimental. Como se você, com teus vestidos, tuas tatuagens, teu cabelo, voz levemente rouca, soubesse as falas sem ensaiá-las.

E é como se ficássemos enredados, você e eu. Uma dança a dois (a casa o quarto a cama a luz o som a pele), uma cena que escrevi e apaguei tantas vezes, esperando achar a atriz principal. Um vinho bebido aos goles fartos, a canção em espanhol tocada, dessa vez, no smartphone. Uma trilha sonora diferente, que você trouxe e disse "ouve isso" e eu preciso reorganizar minha fala de século XX, e eu preciso me olhar no espelho e rir dos fios de barba brancos. E eu preciso te olhar e sentir teu corpo balançando, uma dança a dois, numa fita que eu já não rebobino, mas gravo uma nova cena por cima. Como se eu cantasse exagerado, como se dissesse em teus ouvidos segredos de liquidificador.

Mas então temos esse tanto de distância entre nós, você e eu. Nesse filme é preciso de um pouco de dificuldade -  a gente diz, não dá pra dar tudo certo o tempo todo, filme é assim - nós pensamos. Mas temos um ao outro, como se os diálogos tivessem sido criados a quatro mãos, como se a transição entre cenários fosse como num corte de câmera - filme é assim. Como se teu figurino, teus vestidos, teu cabelo, como se a harmonia do teu nome combinasse com o meu. O amor é um filme sem muitos efeitos especiais, meio confuso às vezes, experimental. É ele que assisto agora, como se nunca o tivesse visto, como se surgisse em mim. Surgisse, sim: como se emergisse, um sentimento à tona. 

O ofício

Penso, com alguma frequência - enquanto tomo meu café na sacada do apartamento, oitavo andar, de paredes amarelas e que dá pro pôr-do-sol, que alaranja a sala, onde abrigo minhas plantas e onde tantas vezes estive ora irrequieto ora silencioso, obstinado por ideias as quais não se concretizariam, lançado tantas outras vezes a um tédio que ainda me traz uma vontade lancinante de me atirar pela janela - no escritor que não me tornei: venderia livros, seria convidado para fazer falas em auditórios, aqueles mesmos onde por diversas oportunidades estive ausente, porque preferia sempre o espaço aberto, a mesa do bar, ágoras contemporâneas.
E eu penso - evidente, pois sou um sujeito dotado de inteligência, sinapticamente preparado e cuja linguagem adquirida de milhares de anos me permitiu conhecer signos linguísticos e organizá-los de forma a transmitir uma mensagem coerente, mas que muitas vezes é prejudicada pelo contexto em que estou inserido, como esse de agora, em que escrevo com um discurso literário utilizando a metalinguagem - em que tipo de história eu saberia contar: talvez nenhuma, talvez essa, que não é bem uma história, mas um processo de fluxo de consciência, talvez alguma sobre amor e/ou ódio, talvez aquela que gostaria de ter vivido, a do escritor-que-dá-palestra.

Tudo isso enquanto me lembro da louça que precisa ser lavada, da roupa que precisa ser estendida, da bagunça que precisa ser guardada. Enquanto tomo meu café lancinante, enquanto atiro minhas ideias pela janela, enquanto planto os pés na memória frequentemente embaçada.

Que escritor eu seria, se escrevesse! 

Mea Culpa

Eu deveria ter, então, uns quinze anos. Católico, fui a um encontro dominical de uma igreja, no centro da cidade, que tinha como tema cura e libertação da alma. Cheguei à pé, me lembro bem, após andar uns dois quilômetros. Vi-me envolto em oração e professando a fé, comungando valores, punhos fechados batendo três vezes no peito magro: por minha culpa, minha tão grande culpa...
No intervalo das rezas me afastei do público e fui sentar, sozinho, do outro lado da rua, em um degrau de uma loja de objetos variados. Escorado no ferrolho, me lembro bem, pensava em Deus, mas também na caminhada e nas tantas mulheres que ali haviam: eu tinha uns quinze anos. Um grupo de três garotas, vendo que eu estava isolado, se aproximou de mim. Eu usava uma pulseira com uma miçanga em que se inscrevia a letra R. Uma das garotas chegou perto de mim e, sem se apresentar, tomou minha mão e olhou a pulseira: perguntou se aquele R era de Raquel, seu nome. Ela tinha também uns quinze anos. Não soube o que responder: minha culpa, minha tão grande culpa. Gostei de Raquel, Raquel gostou de mim. Mas o acaso, esse Labão sacana, me empurrou Lia. Não trabalharia jamais quatorze anos por Raquel. E a vida e Deus foram me empurrando Lias ao longo da minha vida. De Raquel lembro, hoje, dos cabelos mal pintados, da cara de moça, do jeito de quem também não se misturava ali. Onde andará Raquel? No fim, o amor adolescente é o mais simples, porque também prematuro. Amei Raquel quando me pegou nas mãos? Por que não disse a Raquel que era com ela que eu gostaria de ficar? Agora, já adulto, depois de tantos revéses, Raquel é um fragmento de memória. Deve ter encontrado seus muitos Jacós. O amor é assim: uma lembrança que atravessa a memória, como um raio. Vi Raquel uma vez depois, num outro domingo, de relance. Tínhamos quinze anos e a culpa entranhada no peito. 

Novo

E, de novo, sou eu aqui. Lutando contra as formigas que se proliferam, vindas dos subterrâneos (talvez de mim mesmo?). Sou eu aqui, de novo, amargando a tua ausência enquanto tropeço nos móveis tentando desviar deles (ou de você?). Sou eu, tantas vezes, te procurando naquilo em que você não está: um segundo prato sujo, um copo a mais, e mesmo duas cadeiras (pra que, se como em pé?), um par, aquilo que não somos. Na louça suja à deriva na pia; nos ciscos cotidianos que invadem a casa, de janelas sempre abertas (virá como o vento?); na poeira que trago da rua ao entrar calçado em casa: não habitas na minha sujeira. Mas também nas plantas que cultivo (mesmo as de plástico?); no lençol lavado, limpo de véspera; no cheiro doce de almíscar, que se espalha pela casa: não apareces na minha paz. 
De novo, aqui, só eu: o sentimento guardado, o trago já de eras; A espera, tantas vezes anunciada e sentida, escondo nas gavetas bagunçadas; teu gosto, tua cor, aquilo que te falta: eu já o pressentia. Eu, só: mas também você.
Apesar desse conjugado (qual verbo conjugaríamos?) de quarto e sala; afora os 28m2; tudo indica que me sobra espaços (cá dentro eu poderia te perder?), os quais preencho com caixas, todas vazias, onde guardo também o amor ainda com cheiro de novo. Eu, de novo. Aqui: em mim.

Alento

Caminhava pelas indelicadas ruas de Cuiabá. Há pouco chovera. As poças refletiam o mormaço de um dia comum. Pulava os buracos, vestia aquela velha camiseta do radiohead e ouvia o trânsito lento e pesado da capital. Ia para algum lugar. Precisava reencontrar os adjetivos, as práticas cotidianas que lhe parecessem caras, a forma de enfrentar problemas. 
Ouvia sempre algo novo e prendia o cabelo de uma maneira que estava no limiar entre o desleixo e a beleza erudita. Sonhava, desde cedo, com democracias e direitos iguais. Tinha uma daquelas alpergatas manchadas pelo tempo e amava as flores que cresciam, irregulares, pelos canteiros mal cuidados. Era sempre dona de si, com sua bolsa a tira colo e seus óculos escuros, um ar experiente e um medo de futuros.
Quando nos encontrávamos, me pedia que eu enviasse depois aquele poema da Cecília Meireles, porque "não lembrava o nome", mas tinha "achado bonito". Era sempre o mesmo jeito de segurar o cigarro e de falar de algumas tristezas banais. Sempre um préstimo, sempre um lenitivo, via a existência como um rio, caudaloso em alguns pontos, estreito em outros, desbravando espaços, rompendo cercanias. 
Contava-me sempre, com ar de poesia, sobre coisas que pareciam banais: "diásporas das nuvens", "balé das folhas", "ranzinzas ruas". Mas também falava de amor. Como amam os homens e as mulheres, como são belas as palavras quando ditas pelos amantes, como acaba o amor, para recomeçar em todos os lugares. Assumia um tom grave quando falava dos seus amores. Suas experiências românticas, pausadamente relatadas, olhos buscando as lembranças, gesto que eu admirava encantado: o amor para ela nunca fora senão uma tentativa, um evento em que participava mas que sabia que hora ou outra acabaria - e tudo bem.
Eram breves os encontros, e ela se despedia com um sorriso de acaso. Ia para algum lugar, sempre estava indo. E eu não me atrevia a perguntar "para onde?", pois intimamente sabia a resposta: atrás de ser feliz. Marcávamos de nos encontrar, mais por força de hábito do que por interesse. E sempre nos víamos por sorte do destino, nas mesmas ruas esburacadas da cidade.
Nunca mais nos vimos, nem sei por onde andas. Se um dia leres essa prosa, saibas que agora sou eu quem ando pelas indelicadas ruas, pulando buracos, ouvindo o trânsito lento e pesado. E aquele poema da Cecília ainda guardo, mas agora na memória: Ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.

Tempo em dissonância

Não me pergunte as horas. Acabou minha bateria. Não ando com relógio. Não penso em nada que não seja em mim mesmo. Sei que é tarde para tantos assuntos (as palavras que dizemos cumprem seus horários: em algum momento, lá pelas tantas, quando desponta uma tímida claridade, as palavras tomam seus rumos, cada uma para dentro de nós e se encarceram as palavras, trancando nossa voz com o embargo da circunstância), para tantos acenos e acasos. Eu desejava (relembro agora ao atravessar esse tortuoso corredor do pensamento, que ora me trai ora me revela o brilhante punhal das memórias) olhar o mundo deliberadamente e encontrar no espaço do peito uma casamata em que nos abrigaríamos: mas estávamos atrasados, dentro disso que chamamos "um tempo para nós". Chegamos atrasados, alguns anos talvez, ao encontro dos olhares, às mãos que se confundiam em si mesmas. A boca pronunciando amor não entendemos: era outra língua, imperceptível movimento dos modos, era um gesto que ignoramos na manhã de canções que não ouvimos. Era preciso essa coisa que se dá nos apaixonados: a febre o riso a lágrima e solidão e saudade. Era preciso mais que um terno cotidiano de afetos e essa música que não nos diz respeito. Não saberei a hora certa de ir, assim como não sei a hora certa de ficar. Então não pergunte as horas: ando desligado, fora de mim, longe daqui. (No entanto ainda há em meus juncos, escondida sob a superfície que me voga o siso - nódoas de experiências - aquela claridade, o brilho tênue de uma manhã solene. Os planos que me adornam são feitos de chita, como também as pequenas tumbérgias que despontam no meu jardim). Não. Meu fuso é outro: minha carne vibra tal qual os ponteiros, sempre mecânicos, desse relógio que não trago comigo. Engulo meus movimentos, como um deus que tentasse acabar com os rebentos. Sou o que quer que seja, o outro, aquele que não está quando se pergunta por ele (Ainda tenho comigo aquele teu cheiro imperceptível, dos teus cabelos e do adeus que não demos. Carrego embrulhado em papel de pão tuas unhas pintadas de calmaria, tua boca e o riso de ontem). Foi preciso acontecer o que não se explica, o que dá na gente e não se sente: os olhares que não se cruzaram. Um leve movimento de pálpebras, um piscar, um brilho que não houve (o que sonho é opaco, o que vejo ofusca). Voltei para te buscar, perguntar sobre o céu "chove hoje?", mas já não era você. Talvez fosse eu. Talvez (uma pena desloca o ar: pesa sobre a mecânica das situações. Investigo minhas aspirações: já não sei quem sou).

Enquanto eu.

Primeiro, gostaria de dizer que não sei o que tô fazendo aqui. Acende um cigarro, mas não fuma. Vê o movimento sem rumo que a brasa em fogo liberaÉ noite, mas algo lhe diz que raramente tem sido tarde. Não "aqui", nesse 5m², paredes brancas, fumando meu cigarro que libera fumaça correndo feito mastins competidores, pois Ao longe vê-se Glória quando entardece o alaranjado é menos fugidio e tenho ganas de paz. Aqui ao qual me refiro é na vida. 
Quando teus olhos surgirem pensa enquanto vê escorregar pelo filtro um indeciso café marejando possibilidades de afeto e saudade, talvez eu descubra uma leve alternativa que me guie rumo a um objeto concreto, a um plano não de fuga, mas de permanência. Por enquanto apenas sigo como essa brasa, sendo consumida lentamente Enquanto olha para a brasa, talvez se lembre de algum fato, uma memória inventada, algo que lhe distrai. Mas não pense você que te espero. Não espero nada da vida, a não ser que ela jogue limpo comigo. Isso pode significar um monte de coisas, tenho certeza de que é isso que diria. É realmente isso que diria? Não sabe. Ou talvez finja que não saiba, já que quer assumir para si mesmo, a cada dia que passa, uma nova teoria.  
Sabe, lembrei daquela música que ouvimos esses tempos atrás. Não sei quem apresentou para quem, mas recordo daquela tentativa de correr atrás de coisas novas, coisa que éramos exímios. Eram, isso é verdade. O que aconteceu nesse ínterim? Enquanto escuto, penso que você poderia me visitar, sei lá, algum dia desses. Na verdade, ele gostaria que fosse logo, pois não quer ficar à beira do caminho, esperando Godot. Só não faça como no Esperando Godot, ou sei lá mais qual referência você pode se lembrar. Gostaria de acreditar nessa coisa de destino às vezes sabe. Ele acredita. Seria simples, era só estar atento e logo me aparecia o destino, um desenho nas nuvens dizendo "vai lá que é seu" e pronto, acho que assim imagino essa coisa de destino. Muita gente fala que o que é pra ser, será. Será? Será? Não sei bem, só sei que penso nisso e é outro cigarro que preciso acender, outra cerveja que preciso tomar. Enquanto não vem E receia que não venha nunca quem sabe eu não saia por aí, às avessas, rei de mim, para ver se encontro alguma moldura em que caibam minhas fotos futuras, registros forjados de felicidade. Sai de onde está, pega a toalha, decide se arrumar e sair. Para. Toalha nos ombros, olhar distante. Mas hoje, não. Hoje talvez não. Quem sabe esse destino exista mesmo? E se eu me arrebentar e quando ele chegar já estarei cansado demais? Sabe que, tudo que precisa, é de dormir um pouco. Apagar essa coisa toda que lhe atormenta. Hoje, não.