Quando vim a entender as significâncias do amor (o dialeto dos gestos; a semiótica dos beijos; o carinho - e sua morfologia tão particular que poderia se crer que cada um de nós o inventa e o adapta à medida de nossa própria evolução; os cálculos; as geografias; a história e tudo isso que atribuímos à escola, como ensino básico, mas que poderia fazer parte de nossa experimentação amorosa - a formação intelectual, que também é amorosa, se constrói individual e socialmente, passando por avaliações contínuas - que nos envolve num labor misterioso; enfim, toda essa gama de circunstâncias que nos servem, sem muita utilidade, de fato, para nos provar que, mesmo essa matéria, o amor, está carregada de sedimentos que se agregam para formar algo novo, indefinido e mutável) já era tarde demais: havias partido e carregavas, decisiva nas palavras, mas titubeante nos passos tão céleres e irregulares, junto ao corpo, um escopo que te permitira defender-se do meu espírito tão agudo. Era a justificativa que me apresentavas tal qual um lenitivo, como se, para forjar em mim a representação de uma culpa, era preciso que eu aceitasse de bom grado - olhos sóbrios e mãos fraternas - e solene. Explicavas, sem perceber - ou talvez percebendo tanto! o que saberei eu? que motivos eu conheceria naquele instante? Nenhum. No futuro, apenas, esse mesmo céu se apresentaria a mim, tão claro que me sentiria tolo, tão certo, apesar de toda a minha incerteza, que o minimo que poderia ter feito era mesmo ter sorrido ante o irônico destino - a situação embaraçosa, que aquela era a melhor maneira para que mantivéssemos uma possível amizade, coisa que eu questionaria, claro! (mas, naquele momento, nada poderia fazer além de aceitar teus motivos, teu presente, tua preocupação desleixada com esse amor, o amor que mais tarde eu viria a compreender com tanta parcimônia e maturidade) mas que me soava naquele momento como única alternativa, única chance de continuar a ver esses olhos que um dia amei e essa articulação de palavras que só tua boca tinha, ou tem ainda?
O certo é que foras embora, levando consigo um agrupamento de imagens, lembranças, retóricos olhares e toda a concentração de sentimentos breves, mas tão concisos, que sentimos ainda nos primeiros encontros, quando vamos, aos poucos, descobrindo (e despindo, expondo essa nossa nudez emocional, essa que nos faz chorar ou mesmo contar segredos a uma pessoa estranha, que acabamos de conhecer, e pela qual sentimos tanta cumplicidade que se torna difícil não nos abrirmos, entregarmos e, amiúdes, aceitarmos as regras dessa convenção a que chamamos relacionamento...) aquilo que não nos é revelado, mas que trataremos depois por, puro e simplesmente, amor.
E ocorreu, como previsto, como ocorre a todas as pessoas que se relacionam, amam, vivem, a solidão em mim. E fiquei breve, contornando tuas ausências, soletrando teus nomes, imaginando tuas rotas (as rotas, meu deus, as rotas que fazíamos, lembra-se? as rotas, os planos, os cálidos e distintos planos, todos dissolvidos nessas nossas fugas e deslizes) e teus recônditos, imaginando, como me cabia imaginar, tua construção amorosa, tuas novas e tão importantes relações, e me foi tudo tão humano que eu só poderia mesmo era agradecer, como se agradece aos anos pela generosa mão que nos protege, tua partida.
Acontece, e isso eu não esperava, confesso, e confesso não como se fosse um crime de guerra, mas uma declaração, quer dizer, acontece, quer dizer, eu declaro que as coisas se tornaram tão estranhas! e aquela certeza, você me pergunta, embora não fale mais comigo, ou talvez seja eu quem não fale mais com você, não podemos ignorar, embora ignoremos, acontece.
Acontece que já não saberia mais como enunciar essa situação essa coisa sem nome que vai brotando assim assim como a gente deixa que isso aconteça? mas acontece e vai sendo em mim um troço qualquer que eu já não consigo mais pensar ou considerar qual a melhor palavra nesse instante? se não sabes imagina eu eu que tanto sabia que tanto falava controlava as situações que enunciava que mantinha no instante em que dizia um troço meu deus um troço qualquer que existiu e agora eu peno e rezo e sumo das minhas próprias vistas para não pensar mais nesse caso embora eu pense acontece acontece e eu já não temo ou tenho como lhe dizer e eu digo digo mesmo assim vá como já foi vá como ainda irá tantas vezes vá mas deixe esse amor que eu não conhecia crescer também em ti não eu sei que você não deixará que partirá de novo mesmo nunca tendo partido adeus adeus que eu já não sei mais o que te dizer no entanto eu digo como nunca disse antes eu digo como quem diz alguma injúria eu digo vá adeus