Boa-noite

eu vinha andando sem rumo, como se não procurasse nada, mas quisesse encontrar - vocês entendem - quando ouvi um som, uma banda de rock, era o que eu ouvia tocar, e aí fui dar uma olhada, assim, sem muito compromisso, e era uma banda de rock tocando numa festa de alternativos - vocês sabem: roupa de alternativo, cara de alternativo, jeito e marra de alternativo e aquilo tudo era um porre, um porre alternativo e eu precisava tomar uma cerveja. O cara da cerveja, que não parecia lá muito chegado no rock, me disse que a cerveja custava cinco mangos e eu disse cara, o que você tá falando? e percebi que o preço da cerveja não era nada alternativo e fui procurar uísque, e encontrei - talvez fosse isso que eu estivesse procurando - e, meu deus, como me olhavam feio os alternativos! acho que não gostam muito de uísque porque é o jeito americanizado de ser e eles preferem a cerveja, mesmo. E a marijuana? tudo em nome da américa latina, meu caro. Aí surgiu uma dessas alternativas perguntando o que eu gostava na nova música brasileira e eu não soube responder, só disse que adorava coxas e ela disse um oh, como se me achasse um tanto ousado e transgressor e quis me conhecer melhor, e eu a arrastei para um canto, até que ela disse algo como não devemos ser tão alternativos, cara, vamos devagar e eu a deixei lá. Na verdade eu disse pra ela antes de sair - Já estou velho demais Para isso. Os bares cheios De juventude Todos alcoolizados. Saudosa"na minha juventude"¹ e ela me olhava com olhos de quem tá vendo um Godard e eu só continuava. Vindo para casa. Cheirando à uísque, americano, velho e terrivelmente entediado daquela melodia chata que todo mundo adorava por ser intelectual. E eu vinha embora, sempre com meus emboras, porque meu cabelo não é legal e já só enxergo a vida.

¹Obumbrado Vermelho