Para o fim do mundo que vira

Acontece que soube da notícia e foi por acaso. Porque havia ligado o rádio, por uma casualidade qualquer, e anunciaram - o locutor anunciou - que o fim do mundo estava próximo, teríamos menos de 6 dias de existência: depois seríamos consumidos sabe-se lá pelo quê, uma força misteriosa e branda, que nos varreria da face da Terra, ou varreria a Terra toda, não me lembro exatamente. Na verdade eu lembraria exatamente, mas entraria em um certo desespero porque a vida acabar, assim, do nada, é meio angustiante, já que continuaria numa vida sem graça e sem sexo. Nexo, quero dizer. Sem nexo. Aliás, nessas horas de descoberta e reflexão sobre a existência não importaria muito nexos, sexos, plexos. A gente só precisaria tentar se acalmar. (Desliguei o rádio logo em seguida, já que começou a tocar a tal da Rihanna, e tudo o que eu quero nesses últimos dias é não reclamar - coisa que fiz a vida inteira - dessas coisas pops que estão por aí, estragando o mundo. Fiz café. É tarde. Pouco açúcar: quero não ter diabetes nesses últimos dias. Acarinho o gato. Lembrei do Pessoa, que morreu sem ver o fim do mundo, com aquele poema em que ele fala que inveja a sorte do gato, e tal. Mantenho a calma. Chega de lamentações. Sento-me ao chão da cozinha, com meu café amargo. Um gole negro de vida amarga. Casa suja. Devo limpá-la antes que o mundo acabe? Posso, sem armas, revoltar-me? Me levanto, vou à dispensa, encontro e calço as luvas. Pego o balde e o encho com água e aquela solução com cheiro de lavanda. Deixo num canto. Abandonarei o emprego. Contarei carneirinhos à noite.) E eu tentaria. Começaria com um propósito: escreveria meu discurso de despedida: agradecimentos, desculpas, confissões. Enviaria por e-mail a cada pessoa que considero importante. Seria o momento certo para reaproximações, para abraços antes contidos, para tentativas de sexo - por que não?. Faria tudo o que queremos e que, no meu caso, se resume a pouca coisa. Teria a chance de ser feliz, louco, patético. Seria o momento ideal, essa coisa de fim do mundo. Leria os livros que estão empacados, beijaria o chão e agradeceria pelos dias vividos. Sorriria, como nos velhos tempos... (Descalço as luvas. O fim começará pelo litoral? Seremos engolidos pelo mar? Acendo um cigarro. O café fumega. Confusões. Não sei se devo, mesmo, limpar a casa. Mero detalhe: são poucos dias para resolver pendências. Vou à sacada, vejo uma ponta de esperança. É cedo ainda para desesperos. Penso em coisas boas: amigos que fiz, família, todas as cervejas que tomei. Amanhã pela manhã preciso trabalhar. Meio período, apenas. Depois me demitirei. Voltarei para casa contente, assistirei filmes. Rotina.)
...em que eu sorria sem muita razão. Seria feliz. (Volto para a sala. Acendo todas as luzes. Não precisarei pagar a conta do mês que vem. Ligo o rádio novamente. Sento-me no sofá. O gato vem deitar junto à mim. Toca sertanejo. Quem se importa? Ficamos juntos, o gato e eu, contando carneirinhos e esperando o sono.) Seria feliz.