Eu deveria ter, então, uns quinze anos. Católico, fui a um encontro dominical de uma igreja, no centro da cidade, que tinha como tema cura e libertação da alma. Cheguei à pé, me lembro bem, após andar uns dois quilômetros. Vi-me envolto em oração e professando a fé, comungando valores, punhos fechados batendo três vezes no peito magro: por minha culpa, minha tão grande culpa...
No intervalo das rezas me afastei do público e fui sentar, sozinho, do outro lado da rua, em um degrau de uma loja de objetos variados. Escorado no ferrolho, me lembro bem, pensava em Deus, mas também na caminhada e nas tantas mulheres que ali haviam: eu tinha uns quinze anos. Um grupo de três garotas, vendo que eu estava isolado, se aproximou de mim. Eu usava uma pulseira com uma miçanga em que se inscrevia a letra R. Uma das garotas chegou perto de mim e, sem se apresentar, tomou minha mão e olhou a pulseira: perguntou se aquele R era de Raquel, seu nome. Ela tinha também uns quinze anos. Não soube o que responder: minha culpa, minha tão grande culpa. Gostei de Raquel, Raquel gostou de mim. Mas o acaso, esse Labão sacana, me empurrou Lia. Não trabalharia jamais quatorze anos por Raquel. E a vida e Deus foram me empurrando Lias ao longo da minha vida. De Raquel lembro, hoje, dos cabelos mal pintados, da cara de moça, do jeito de quem também não se misturava ali. Onde andará Raquel? No fim, o amor adolescente é o mais simples, porque também prematuro. Amei Raquel quando me pegou nas mãos? Por que não disse a Raquel que era com ela que eu gostaria de ficar? Agora, já adulto, depois de tantos revéses, Raquel é um fragmento de memória. Deve ter encontrado seus muitos Jacós. O amor é assim: uma lembrança que atravessa a memória, como um raio. Vi Raquel uma vez depois, num outro domingo, de relance. Tínhamos quinze anos e a culpa entranhada no peito.