Alvorada de pensamentos

Um pássaro cruzava o céu e anunciava a alvorada. Vinha o sol agigantando-se sobre o horizonte e aquele amarelo ouro cobria os prédios, as casas, galpões e fábricas. Eu fui feliz em algum momento da minha vida. Não, isso não foi em tom de afirmação. Eu fui feliz em algum momento da minha vida? - Melhor, melhor assim. Embora os pássaros rompam madrugadas, embora haja sempre um novo sol, sou eu aqui, sempre solitário, sempre voltando pra casa. "Formosos são os pés daqueles que anunciam"... que tudo anda aos tropeços. A vida, na verdade, não passa de um amontoado de gente tropeçando nos próprios pés. Cadarços desamarrados: sentimentos quaisquer. Mas há os que usam suas muletas e fingem não tropeçar. Apenas mancam. Degredados - é o que somos. Mesmo assim as manhãs continuam a nascer, os pássaros  a cantar, os carros a correr e minha vida prossegue, perdida em si mesma. Volta para casa: sempre para um abrigo em que eu imagine estar seguro das intempéries do mundo. Imagine. Talvez a grande realização dessa minha vida seja a paciência em continuar vivendo, apesar de todos os pesares, que são imensos. Mas, saiba, peço perdão pelo meu tom pessimista. É que hoje eu acordei tão só. Mais só do que eu merecia. Eu sei que poderia pedir exílio. Sei, também, que talvez você me ouvisse, caso eu gritasse, onde quer que estivesse. Mas eu me guardo no nó da garganta. E contemplo esse dia que nasce, contra a minha vontade, renovando possibilidades de acertos ou novos erros. Hermético demais, você pensa (ouço de longe teus pensamentos. Farfalham em mim, tão próximos que quase posso tocá-los. Mas não. Deixarei que o som se propague pelo vácuo do espaço. Esse som inaudível. Esse espaço do meu corpo península, tão distante de qualquer continente, tão vazio de gente, tão fechado para visitas, selvagem e desestruturado. O triste é saber que o som sempre vai se propagar pelo vácuo e vou sempre ouvir seus pensamentos, sejam quais forem, de onde vierem ou o que queiram dizer. Mas não vou interpretá-los. Que se choquem no meu corpo absurdo, que vibrem minha carne cansada, que sejam ruídos intraduzíveis, acordes e ritmo que meus ouvidos sempre desconhecerão. Ouço de longe teus pensamentos, ecoando em mim como nódoas ou brotando em mim, mesmo que ainda não seja primavera, mesmo que o inverno insista em sentar e esperar pelo café) e talvez tenha razão. Talvez sejam apenas minhas considerações contraditórias. Talvez seja eu, sozinho, esperando o ônibus, na tentativa de voltar para casa, enquanto um pássaro cruza o céu e anuncia a alvorada. Enquanto o sol agiganta-se sobre o horizonte e cobre construções. Eu fui solitário em algum momento da minha vida. Talvez tenha sido sempre, mas sempre não é todo dia.