Uma ideia estúpida, certamente. Não há nada mais evidente, ecumênico e piedoso que uma ideia estúpida. Pensava: Os "cogitos-ergo-sums" que tanto ouvimos por aí devem valer de algo. "É do Shakespeare?", ela me perguntava. "Descartes", eu dizia. Tanto faz, ela retorquia. Entre um cigarro e outro, um nome a mais ou a menos pro seu índice de nomes estrangeiros não era nada. O que importava pra ela era sempre o intervalo entre um cigarro e outro, em que poderia questionar, apontar ou excitar-se com algum conhecimento que eu poderia ter. Prévio, óbvio: Iria sempre preparado para um embate filosófico, no qual eu sempre ganharia e ela, maravilhada com "tanto conhecimento", me diria apenas: - muita filosofia e pouca experiência.... E riria, desatinada, zombando da minha erudição forjada, da sua descompostura e de nós, tão graves e tão íntimos. Numa das ocasiões - breves ocasiões - em que fui desarmado, esperando nada além da fumaça, da noite, dos sorrisos simpáticos e da companhia que há muito eu julgara "única que me entendia, apesar de tudo", foi que tive a tal ideia estúpida. Não quis contar-lhe. Ela palpitaria, dissimularia e por fim romperia nossa tão dispendiosa amizade. Acontece que já me atravessava os sonhos e começava a importunar, inclusive, minha vida social essa tal ideia. Procurei auxílio nos planos que eu havia feito, desfeito e refeito: Sem resposta. Procurei auxílio em tudo o que me faria agarrar-me à terra, quem sabe ao céu, num plano divino desordenado, compulsivo e desacreditado, sobretudo: Sem resposta. Restava, após verificar minha lista de "a quem recorrer", ela, afinal, era a única ser existente no mundo que me compreenderia. Ensaiei como contar-lhe desde o princípio: motivos, formas e, principalmente, porque seria importante para ela que isso acontecesse. Ensaiei em vão. Ponderava, no fim das contas, todas as coisas pelas quais já havíamos passado. Era uma ideia absurdamente estúpida, e entregá-la a ela seria como dar cravos à quem merece rosas. No fim são flores, pensei, ambas flores, mas não (tardiamente descobriria que aquela ideia poderia ter me salvado de tantas outras coisas, mas no momento me calei): Seria necessário planejar mais. Tantas ideias estúpidas já haviam me passado pela cabeça. Era comum que eu as tivesse, inclusive. O que me angustiou foi essa em particular, não por ser meramente estúpida, mas porque mudaria tudo. Afastei-me, então. Uma ausência suspeita fez com que ela me procurasse, claro: Éramos íntimos. E como não pude tirar essa ideia da cabeça, e como, por fim, aceitei o fato de que só ela poderia me compreender, resolvi contar. Essa tal ideia era simples: executaria-a e pronto. Seria bom pra ela, eu dizia, mas ela não compreendeu. Depois de um momento incerto de reflexão olhou em meus olhos, como nunca teria olhado, ou como olharia futuramente para um retrato meu qualquer, e disse, certeira: - Adoro aquele filme da Bardot, pra mim que realmente se amavam.
Conversa não dita
Me fala sobre deuses e minha boca tem um palpite sobre a sua, que me fala sobre deuses e penso: deveria dizer-lhe tudo o que eu sempre pensei, mas me calo, sempre me calarei porque não sei como dizer tudo o que tenho mesmo a dizer e talvez seja pouco, talvez seja muito, talvez nem seja o que eu acho que deveria dizer... há uma certa confusão nas minhas coisas, todas meio "caotizadas" pela minha interpretação da realidade simples e eu quero complicar, eu digo, quer dizer, eu tô dizendo que adoro complicar as coisas porque ver só o lado simples me faz menos intenso talvez, não sei bem o que quer dizer "talvez" nesses atuais contextos de produção monologal porque preciso de coisas certas, não extremistas, mas certas, você sabe, sabe que eu tenho um monte a dizer mas me calo e eu sei que você gosta desse meu silêncio morno, silêncio bobo, aliás, coisa que sei bem fazer, aliás, é a única coisa que sei fazer e penso: deveria dizer-lhe tudo o que eu sempre pensei, mesmo sobre isso, um assunto tão banal e eu me perco olhando o céu, aquele mesmo céu, lembra? aquele céu que tá aí, céu de todos os dias, céu talvez claro, talvez escuro e nesse momento somos apunhalados por essa coisa chamada pontos de vista, não, não é que eu não goste de não pensar diferente, é que diferir às vezes é necessário, e necessário é uma palavra pesada, não falemos sobre isso, falemos sobre o que eu pensei em te dizer, que não é pouco, é uma coisa que tá aqui, meio entalada na garganta, meio vontade de continuar sendo isso tudo, ou não ser nada daquilo que eu deveria ser só pra entrar em contradição, aliás, eu sei que você gosta desse silêncio bobo, aliás, é a única coisa que sei fazer: pensar em dizer aquilo que eu não disse ainda que é o que eu sinto e o que eu sinto é uma vontade absurda de ser feliz, entretanto, no entanto, só penso em dizer, porque não disse de fato não, não vá embora agora, não, espere, não espere, não fique, não deixe que isso tudo se perca dentro de você porque essa coisa deve voltar a mim de alguma forma nem que seja de uma forma que me fale sobre deuses e minha boca tem um palpite sobre a sua.
Sob um céu de promessas
- o que eu posso fazer por você?
Talvez você possa dizer que me ama, que sente minha falta, que sem mim é difícil, ou não... Não, não diga nada. Segura minha mão. Segura agora. Segura forte! Segura e me olha como você olha quando quer dizer algo e não diz. Só não diz porque não sabe mesmo o que dizer, ou não diz porque quer que eu descubra. Não, melhor não. Melhor evitarmos essas coisas que a gente sente dentro da gente. Melhor mesmo é a gente se fingir de triste, triste ou feliz, tanto faz, mas o melhor é fingir. Finge pra mim, finge que tudo vai dar certo e que essa coisa toda vai bem. Não, não tô te dizendo pra mentir pra mim. Não minta. Sim, é melhor. É melhor que você viaje. Sim, é melhor. É melhor que você publique fotos em suas redes sociais, com legendas do tipo "eu me divertindo muito em porto de galinhas", ou "tô adorando essa cidade" e, ao fundo, qualquer cenário do tipo Angra dos Reis, ou qualquer lugar paradisíaco, desses que você gosta, que faz questão de dizer que gosta. Depois você volta. Volta e não diz que voltou porque sentiu minha falta. Volta e diz que "as oportunidades não são tão boas quanto aqui" e esse blablabla todo que eu mesmo vivo repetindo. Volta e não me conta, pra eu te encontrar por aí, nesses mesmos lugares que a gente insiste em frequentar. Não, melhor você me mandar uma dessas mensagens bonitinhas, dessas que você manda quando quer dizer alguma coisa e não pode perder o momento. Talvez, se você mandasse... talvez, talvez tudo seria diferente. Não seria. Eu sei que não seria. Agora, no playlist toca Aquellas Pequeñas Cosas. Ela está muda. Acendo um cigarro. Ela olha. Acho lindo o jeito como você segura o cigarro entre os dentes. Não temos mais assunto. Brincamos demais. E então ela se balança, doce balanço, uma dança silenciosa. De olhos fechados, um sorriso discreto, desses de canto de boca, ela sussurra. Eu já não escuto. Ninguém escuta.Como hojas muertas que el viento arrastra allá o aqui, que te sonríen tristes y nos hacen que lloremos cuando nadie nos ve...Ninguém escuta.
Texto Desesperado
Você diz, diz com esse ar, todo esse ar, essa pompa, essa coisa que você tem e eu não sei de onde tira essa coisa que te sufoca, mas você diz "eu preciso voar" e eu digo, claro, claro que eu sei que você "precisa voar", todo mundo precisa até mesmo você "precisa voar", "precisa voar" pra tão longe eu te pergunto e você diz apenas que "eu preciso voar" eu sei que eu preciso também, mas não assim, talvez um dia eu voe, talvez um dia eu... você sabe bem sobre isso sabe, sabe? será mesmo que você sabe tanto sobre tanta coisa e eu continuo te dizendo com esse ar, toda essa pompa, essa coisa que eu tiro daqui de dentro que eu -tiro no escuro, e você ainda com esse temperamento que eu nego tanto, evito tanto e no entanto volta sempre a enfeitiçar e eu já não sei mais como voar embora tenha tantas asas, tantas quantas asas tenho já não lembro? Não lembro, lembro apenas de você me dizendo que todo mundo partirá e eu não dizia nada e eu não parto não faço nada, fico esperando você "voar", lembra que eu te disse que entre voar e voltar a diferença é mínima? Então cada volta é partida eu sei, você disse, eu sei que eu estava indo partindo saindo de você e eu dizia, você dizia, eu dizia que sabia mas não sabia e é verdade, você não sabia porque você só pensava que deveria dizer "eu preciso voar" e não voava e não voltava e não partia porque parti eu penso, por que parti se eu ainda poderia esperar o findar dos tempos mas não eu não poderia dizer "preciso voar" e no entanto é tanto e tonto que eu lhe escrevi essa última elegia avassaladoramente desesperada para confessar pra você que eu não sei mais, você diz, eu não sei mais o que pensar sobre você e eu digo apenas não pense, não pense nada porque quem pensa demais acaba sentindo de menos e eu te disse que você "precisa voar"?
Uma noite clássica
No player, ária na quarta corda. Ela está nua sobre a cama. Bach ficou cego, eu digo. Ela, de bruços, com a cabeça virada para a parede, não tem qualquer tipo de resposta. Eu considero, eu digo, Bach o melhor, melhor que Handel, que também ficou meio cego... Nua, sobre a cama, de bruços, vira a cabeça para mim. Sorri ironicamente. A luz ajuda: é uma imagem barroca. Bach ajuda: o clima é barroco. Estou de pé, próximo à janela. Sobre a cômoda, meu maço. A vantagem de deixar a porta do banheiro entreaberta é que não fico tão perdido por aqui, penso enquanto pego o maço, enquanto olho praquela imagem barroca. Vou até a janela. Destaco um cigarro. Eu deveria parar, penso. Você viu meu isqueiro? interrogo. Ela se levanta, sem pressa. Dada a complexidade do momento, não há resposta. Está absolutamente bonita sem roupa. Não importa. Logo encontro o isqueiro: estava no bolso da minha calça. Por que você se veste tão rápido? Pergunta. É uma boa pergunta. Mas não a respondo. Acendo o cigarro. À janela, vejo a cidade. Luzes, carros, vida amarga. A pergunta é boa, mas prefiro fumar e pensar nesse cubículo, nesse terceiro andar, na falta de grana. Me pergunto agora do porquê dela estar aqui, nua sobre a minha cama, nesse lugar de três peças. Ela se levanta e me abraça por trás. Odeio abraços. Me viro. Por que será que não odeio tanto os seus abraços? Olho-a nos olhos. É a primeira vez que olho nos olhos de alguém. Aprendi que não se deve olhar diretamente nos olhos: demonstra subserviência. Bicho com medo olha nos olhos. Ela tem olhos lindos. Tento beijá-la, mas vira o rosto. Está brincando comigo, claro que está. Desabotoa minha camisa. Estremeço. Passivo, deixo que retire minha camisa. Por que sempre me visto tão rápido? Por que deixo, irrelutante, que me tire a camisa? Ela a veste. Está brincando comigo. Sorriso irônico. Bach é um merda, profana, Ray Charles também era cego e muito melhor... Suingue, gato, eu prefiro homens 'hot', dispara com sua voz, essa voz desafiadora e eu me emputeço. Eu não sou um cara quente. Ela prefere outros, mas está comigo. Penso em perguntar o motivo para que esteja usando minha camisa, completamente seminua. Acendo outro cigarro. Tira da minha boca e traga. Você é o cara da minha vida. Não, ela não diz isso. Esperava que dissesse. Agora me beija. Eu permito. Tira minha calça. Eu permito. Me arrasta para a cama. Está brincando comigo. Sabe jogar. Sorri. Diz que me ama. Eu estremeço. Ela prefere Ray Charles. Não há o que responder.
Qualquer Epifania
São duas horas no relógio quebrado. O frio brinca na tua pele desagasalhada. Pela rua, carros passam. Voltar para casa é o clichê. Por todos os lados, gente: riem na madrugada em neblina. Pergunto-nos: o que será de nós? É madrugada e bons ventos te levam. Na boca em vez de um beijo, um chiclé de menta. Você volta para casa. Clichê. Faz frio e marca duas horas no relógio abandonado. Peço que te esqueças. Você não pode. A cidade embarulhada, humana em demasia, te recorda de pequenos feitos. E aquela música te pesa aos ouvidos. E a mochila te assombra os ombros. É madrugada e os estabelecimentos se fecharam para o descanso. A porta range. Silêncio. A casa vazia me impede o grito. Eram duas horas no relógio perdido. Quantas serão até amanhã? Meço um sussuro e um café. Perdi. Sinto que perco sempre. Meus olhos, peregrinos inconfidentes, me levam para casa.
É tarde, amanhecerá.
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