Uma noite clássica

No player, ária na quarta corda. Ela está nua sobre a cama. Bach ficou cego, eu digo. Ela, de bruços, com a cabeça virada para a parede, não tem qualquer tipo de resposta. Eu considero, eu digo, Bach o melhor, melhor que Handel, que também ficou meio cego... Nua, sobre a cama, de bruços, vira a cabeça para mim. Sorri ironicamente. A luz ajuda: é uma imagem barroca. Bach ajuda: o clima é barroco. Estou de pé, próximo à janela. Sobre a cômoda, meu maço. A vantagem de deixar a porta do banheiro entreaberta é que não fico tão perdido por aqui, penso enquanto pego o maço, enquanto olho praquela imagem barroca. Vou até a janela. Destaco um cigarro. Eu deveria parar, penso. Você viu meu isqueiro? interrogo. Ela se levanta, sem pressa. Dada a complexidade do momento, não há resposta. Está absolutamente bonita sem roupa. Não importa. Logo encontro o isqueiro: estava no bolso da minha calça. Por que você se veste tão rápido? Pergunta. É uma boa pergunta. Mas não a respondo. Acendo o cigarro. À janela, vejo a cidade. Luzes, carros, vida amarga. A pergunta é boa, mas prefiro fumar e pensar nesse cubículo, nesse terceiro andar, na falta de grana. Me pergunto agora do porquê dela estar aqui, nua sobre a minha cama, nesse lugar de três peças. Ela se levanta e me abraça por trás. Odeio abraços. Me viro. Por que será que não odeio tanto os seus abraços? Olho-a nos olhos. É a primeira vez que olho nos olhos de alguém. Aprendi que não se deve olhar diretamente nos olhos: demonstra subserviência. Bicho com medo olha nos olhos. Ela tem olhos lindos. Tento beijá-la, mas vira o rosto. Está brincando comigo, claro que está. Desabotoa minha camisa. Estremeço. Passivo, deixo que retire minha camisa. Por que sempre me visto tão rápido? Por que deixo, irrelutante, que me tire a camisa? Ela a veste. Está brincando comigo. Sorriso irônico. Bach é um merda, profana, Ray Charles também era cego e muito melhor... Suingue, gato, eu prefiro homens 'hot', dispara com sua voz, essa voz desafiadora e eu me emputeço. Eu não sou um cara quente. Ela prefere outros, mas está comigo. Penso em perguntar o motivo para que esteja usando minha camisa, completamente seminua. Acendo outro cigarro. Tira da minha boca e traga. Você é o cara da minha vida. Não, ela não diz isso. Esperava que dissesse. Agora me beija. Eu permito. Tira minha calça. Eu permito. Me arrasta para a cama. Está brincando comigo. Sabe jogar. Sorri. Diz que me ama. Eu estremeço. Ela prefere Ray Charles. Não há o que responder.