Blue

Um vinho, um jazz, uma macarronada. Preparei o cenário. Especial, como deveria ser. Então você chega. Eu digo "sente-se", você, sorridente, se senta. Somos belos. Aristocratas. Ouvimos músicas e nos deliciamos, os lábios tocando a taça de cristal, a luz, "olhe essa luz, meu bem", nossa troca de olhares. Ambos, sentados à mesa, fitados pelas velas, doce calor, o clima romântico. Jazz. A Ella Fitzgerald. Tomo suas mãos. Entrelaço-as com as minhas. Você me olha, surpresa."Mais vinho, amor?". Você sorri. Somos jovens. Como num filme, gestos marcados, câmera ao fundo, nós, só nós dois. Nos amamos. Você, quando me toca, me faz outro homem, novo homem. Somos artistas. De repente, cá estou. Não há ninguém além de mim, tomando um suave porcaria em copos de vidro. Co-pos-de-vi-dro. Em frente à tela do computador, prometendo a mim mesmo que "amanhã será diferente", que eu "serei mais homem" e te direi aquilo que eu "tenho tanto ensaiado pra dizer". Outra desculpa. Não há nada pra lhe dizer, além de "oi, tudo bem?...Estou bem. Novidades?... Também não tenho". Sou só eu e essa casa vazia, essa música brega, indecente, que me toma os ouvidos, e eu gosto. Eu me delicio com essa decadência. Me delicio com a sua antipresença, sua onipresença que me incomoda, seus gestos doentios, sua auto-estima patética. E essa lâmpada incandescente que insisto em manter apagada, pra não revelar nada. Lá fora, aquela luz alaranjada, triste, das vias públicas. Eu fico: Olhos sorrateiros, peito em soslaio, cabeça doida, rodando doida, pensando em você, na outra você, e na outra, nessas horas quem é que garante que somos fiéis a um sentimento idiota? Somos todos amantes de todas as mulheres. Um gole no gargalo! Um gole à moça que passou hoje na rua e que sequer saberei o nome. Um gole ao ex amor, ao futuro, a tudo que não vale a pena! E essa música suja entrando nos meus ouvidos. Essa arritmia transifigurada em risadas compulsivas, mentais apenas e o céu lá fora, imenso. E a casa vazia, imensa. 

Partirei.