Outono

Também eu vinha descorado pelo modos. Num amarelar outonal, me perdia entre o tom sabido do horizonte quase inalcançável e o meu espírito ocre, que empalideceria rápido - vontades caindo no absurdo da minha parcimônia. O verão que fez em mim, de chuvas cotidianas, partiu em direção aos meus olhos, para derrubar as réstias de água através deles. Agora eu desfolhava. Caíam de mim os mistérios, os dísticos, os breves, os cálidos. Era eu avermelhando, num vermelho tardio. Era eu amarelando, num amarelo conformado. Era eu murchando, caindo de mim, secando à espera de um inverno que me calaria os cânticos, que me apunhalaria, inverno dos tempos, corpo, sonhos. Era o céu de um azul vagabundo, de nuvens entediadas, que me resguardava e me cobria o corpo que se desintegrava lentamente. Uma folha cai: é um sonho passado desfeito. Outra folha: um amor que se vai, conduzido pelo vento. Eu permaneço, meu corpo não rompe o amanhã. Tenho formas e gestos. Tenho gritos e acalantos: Minha boca arde num alaranjado fim-de-tarde. Quer atravessar a noite-invólucro mas os meus meios se enlevam ao balbuciar de estrelas cansadas. Sou todo outono, serenando as paixões contidas em minhas seivas. Para onde iremos? Vejo-te, canção em ostinato aos meus ouvidos. Sonho-te, à brisa que me entrego receio teus sinais. Para onde iremos? Sujeitos às condições do tempo, enfrentaremos esperançosos esse estio de motivos e circunstâncias. Para onde iremos? Já não será possível saber. Cinjo o teu silêncio e espero: hoy te vi, mirando rosas. Hoy te vi, tu nunca dices que hay en ti...