Serão

Escuto teus passos. Pé ante pé. Mas não os ouço agora de completa chegada. Teus passos partem. Teu corpo foge. Ainda nos resta tempo: logo o inverno chega e precisaremos nos recolher. Para onde? O que éramos? Você não escapa das minhas mãos. Sou eu quem te solto, sabe-se lá por quê. Dá-me tua mão, implora meu íntimo, mas meu corpo sonega minhas vontades. Você não é quem deveria ser - penso. Agora, me responda única e sinceramente: Para onde vão teus passos senão para a distância marcada dos teus gestos?  Enquanto falo - sozinho - ela me olha, escondida atrás da minha confusão. Talvez ria do meu jeito indeciso. Talvez pranteie. Não, decerto não chorará. Apenas me olha, escondida atrás da minha solidão. Solidão. Confusão. Alguma coisa nesse entremeio. Há uma certa ilusão (essa era a palavra que sempre busquei quando junto a ti) nos nossos modos. Você é minha pedra no sapato. Um sapato que insisto em calçar. E eu, o que sou para ti além de pedra atirada, que você pretensamente descarta? Não me creia abismal. - Ela continua a me olhar de um lugar seguro, tão segura de si. Já não percebo: afasto-me de mim mesmo, campo de percepção limitada. É tarde demais para tais considerações. É tarde demais também para revogações, investimentos, projetos. É tarde, mais tarde reavaliarei todas as tuas presenças. Mas você não perceberá, ocultada pelos meus indelicados pensamentos. E então você virá, como vem a manhã. Virá com o findar de estrelas. Virá colorindo ocasiões. E logo que te veja silenciarei minhas rotas. Calarei em minha boca um murmúrio: tua insinuação: hóstia às minhas orações. Ela chega. Não interroga. Pensa, apenas. Sorri, talvez. E eu, o que farei com esse tanto de quinquilharias que não despejo da cabeça? Ela está. Eu não. Sou eu quem agora parte à procura do seu esconderijo. Sou eu quem agora a observa da lonjura imposta pelo tempo. E pranteio, talvez. Mas canto, mato e vivo. Fora de ti, intercalado pelos nossos olhares complacentes, canto. Crown and anchor me, or let me sail away...