Para o fim do mundo que vira

Acontece que soube da notícia e foi por acaso. Porque havia ligado o rádio, por uma casualidade qualquer, e anunciaram - o locutor anunciou - que o fim do mundo estava próximo, teríamos menos de 6 dias de existência: depois seríamos consumidos sabe-se lá pelo quê, uma força misteriosa e branda, que nos varreria da face da Terra, ou varreria a Terra toda, não me lembro exatamente. Na verdade eu lembraria exatamente, mas entraria em um certo desespero porque a vida acabar, assim, do nada, é meio angustiante, já que continuaria numa vida sem graça e sem sexo. Nexo, quero dizer. Sem nexo. Aliás, nessas horas de descoberta e reflexão sobre a existência não importaria muito nexos, sexos, plexos. A gente só precisaria tentar se acalmar. (Desliguei o rádio logo em seguida, já que começou a tocar a tal da Rihanna, e tudo o que eu quero nesses últimos dias é não reclamar - coisa que fiz a vida inteira - dessas coisas pops que estão por aí, estragando o mundo. Fiz café. É tarde. Pouco açúcar: quero não ter diabetes nesses últimos dias. Acarinho o gato. Lembrei do Pessoa, que morreu sem ver o fim do mundo, com aquele poema em que ele fala que inveja a sorte do gato, e tal. Mantenho a calma. Chega de lamentações. Sento-me ao chão da cozinha, com meu café amargo. Um gole negro de vida amarga. Casa suja. Devo limpá-la antes que o mundo acabe? Posso, sem armas, revoltar-me? Me levanto, vou à dispensa, encontro e calço as luvas. Pego o balde e o encho com água e aquela solução com cheiro de lavanda. Deixo num canto. Abandonarei o emprego. Contarei carneirinhos à noite.) E eu tentaria. Começaria com um propósito: escreveria meu discurso de despedida: agradecimentos, desculpas, confissões. Enviaria por e-mail a cada pessoa que considero importante. Seria o momento certo para reaproximações, para abraços antes contidos, para tentativas de sexo - por que não?. Faria tudo o que queremos e que, no meu caso, se resume a pouca coisa. Teria a chance de ser feliz, louco, patético. Seria o momento ideal, essa coisa de fim do mundo. Leria os livros que estão empacados, beijaria o chão e agradeceria pelos dias vividos. Sorriria, como nos velhos tempos... (Descalço as luvas. O fim começará pelo litoral? Seremos engolidos pelo mar? Acendo um cigarro. O café fumega. Confusões. Não sei se devo, mesmo, limpar a casa. Mero detalhe: são poucos dias para resolver pendências. Vou à sacada, vejo uma ponta de esperança. É cedo ainda para desesperos. Penso em coisas boas: amigos que fiz, família, todas as cervejas que tomei. Amanhã pela manhã preciso trabalhar. Meio período, apenas. Depois me demitirei. Voltarei para casa contente, assistirei filmes. Rotina.)
...em que eu sorria sem muita razão. Seria feliz. (Volto para a sala. Acendo todas as luzes. Não precisarei pagar a conta do mês que vem. Ligo o rádio novamente. Sento-me no sofá. O gato vem deitar junto à mim. Toca sertanejo. Quem se importa? Ficamos juntos, o gato e eu, contando carneirinhos e esperando o sono.) Seria feliz. 

Boa-noite

eu vinha andando sem rumo, como se não procurasse nada, mas quisesse encontrar - vocês entendem - quando ouvi um som, uma banda de rock, era o que eu ouvia tocar, e aí fui dar uma olhada, assim, sem muito compromisso, e era uma banda de rock tocando numa festa de alternativos - vocês sabem: roupa de alternativo, cara de alternativo, jeito e marra de alternativo e aquilo tudo era um porre, um porre alternativo e eu precisava tomar uma cerveja. O cara da cerveja, que não parecia lá muito chegado no rock, me disse que a cerveja custava cinco mangos e eu disse cara, o que você tá falando? e percebi que o preço da cerveja não era nada alternativo e fui procurar uísque, e encontrei - talvez fosse isso que eu estivesse procurando - e, meu deus, como me olhavam feio os alternativos! acho que não gostam muito de uísque porque é o jeito americanizado de ser e eles preferem a cerveja, mesmo. E a marijuana? tudo em nome da américa latina, meu caro. Aí surgiu uma dessas alternativas perguntando o que eu gostava na nova música brasileira e eu não soube responder, só disse que adorava coxas e ela disse um oh, como se me achasse um tanto ousado e transgressor e quis me conhecer melhor, e eu a arrastei para um canto, até que ela disse algo como não devemos ser tão alternativos, cara, vamos devagar e eu a deixei lá. Na verdade eu disse pra ela antes de sair - Já estou velho demais Para isso. Os bares cheios De juventude Todos alcoolizados. Saudosa"na minha juventude"¹ e ela me olhava com olhos de quem tá vendo um Godard e eu só continuava. Vindo para casa. Cheirando à uísque, americano, velho e terrivelmente entediado daquela melodia chata que todo mundo adorava por ser intelectual. E eu vinha embora, sempre com meus emboras, porque meu cabelo não é legal e já só enxergo a vida.

¹Obumbrado Vermelho

Carta de Amor

Quando vim a entender as significâncias do amor (o dialeto dos gestos; a semiótica dos beijos; o carinho - e sua morfologia tão particular que poderia se crer que cada um de nós o inventa e o adapta à medida de nossa própria evolução; os cálculos; as geografias; a história e tudo isso que atribuímos à escola, como ensino básico, mas que poderia fazer parte de nossa experimentação amorosa - a formação intelectual, que também é amorosa, se constrói individual e socialmente, passando por avaliações contínuas - que nos envolve num labor misterioso; enfim, toda essa gama de circunstâncias que nos servem, sem muita utilidade, de fato, para nos provar que, mesmo essa matéria, o amor, está carregada de sedimentos que se agregam para formar algo novo, indefinido e mutável) já era tarde demais: havias partido e carregavas, decisiva nas palavras, mas titubeante nos passos tão céleres e irregulares, junto ao corpo, um escopo que te permitira defender-se do meu espírito tão agudo. Era a justificativa que me apresentavas tal qual um lenitivo, como se, para forjar em mim a representação de uma culpa, era preciso que eu aceitasse de bom grado - olhos sóbrios e mãos fraternas - e solene. Explicavas, sem perceber - ou talvez percebendo tanto! o que saberei eu? que motivos eu conheceria naquele instante? Nenhum. No futuro, apenas, esse mesmo céu se apresentaria a mim, tão claro que me sentiria tolo, tão certo, apesar de toda a minha incerteza, que o minimo que poderia ter feito era mesmo ter sorrido ante o irônico destino - a situação embaraçosa, que aquela era a melhor maneira para que mantivéssemos uma possível amizade, coisa que eu questionaria, claro! (mas, naquele momento, nada poderia fazer além de aceitar teus motivos, teu presente, tua preocupação desleixada com esse amor, o amor que mais tarde eu viria a compreender com tanta parcimônia e maturidade) mas que me soava naquele momento como única alternativa, única chance de continuar a ver esses olhos que um dia amei e essa articulação de palavras que só tua boca tinha, ou tem ainda? 
O certo é que foras embora, levando consigo um agrupamento de imagens, lembranças, retóricos olhares e toda a concentração de sentimentos breves, mas tão concisos, que sentimos ainda nos primeiros encontros, quando vamos, aos poucos, descobrindo (e despindo, expondo essa nossa nudez emocional, essa que nos faz chorar ou mesmo contar segredos a uma pessoa estranha, que acabamos de conhecer, e pela qual sentimos  tanta cumplicidade que se torna difícil não nos abrirmos, entregarmos e, amiúdes, aceitarmos as regras dessa convenção a que chamamos relacionamento...) aquilo que não nos é revelado, mas que trataremos depois por, puro e simplesmente, amor. 
E ocorreu, como previsto, como ocorre a todas as pessoas que se relacionam, amam, vivem, a solidão em mim. E fiquei breve, contornando tuas ausências, soletrando teus nomes, imaginando tuas rotas (as rotas, meu deus, as rotas que fazíamos, lembra-se? as rotas, os planos, os cálidos e distintos planos, todos dissolvidos nessas nossas fugas e deslizes) e teus recônditos, imaginando, como me cabia imaginar, tua construção amorosa, tuas novas e tão importantes relações, e me foi tudo tão humano que eu só poderia mesmo era agradecer, como se agradece aos anos pela generosa mão que nos protege, tua partida. 
Acontece, e isso eu não esperava, confesso, e confesso não como se fosse um crime de guerra, mas uma declaração, quer dizer, acontece, quer dizer, eu declaro que as coisas se tornaram tão estranhas! e aquela certeza, você me pergunta, embora não fale mais comigo, ou talvez seja eu quem não fale mais com você, não podemos ignorar, embora ignoremos, acontece. 
Acontece que já não saberia mais como enunciar essa situação essa coisa sem nome que vai brotando assim assim como a gente deixa que isso aconteça? mas acontece e vai sendo em mim um troço qualquer que eu já não consigo mais pensar ou considerar qual a melhor palavra nesse instante? se não sabes imagina eu eu que tanto sabia que tanto falava controlava as situações que enunciava que mantinha no instante em que dizia um troço meu deus um troço qualquer que existiu e agora eu peno e rezo e sumo das minhas próprias vistas para não pensar mais nesse caso embora eu pense acontece acontece e eu já não temo ou tenho como lhe dizer e eu digo digo mesmo assim vá como já foi vá como ainda irá tantas vezes vá mas deixe esse amor que eu não conhecia crescer também em ti não eu sei que você não deixará que partirá de novo mesmo nunca tendo partido adeus adeus que eu já não sei mais o que te dizer no entanto eu digo como nunca disse antes eu digo como quem diz alguma injúria eu digo vá adeus

Alvorada de pensamentos

Um pássaro cruzava o céu e anunciava a alvorada. Vinha o sol agigantando-se sobre o horizonte e aquele amarelo ouro cobria os prédios, as casas, galpões e fábricas. Eu fui feliz em algum momento da minha vida. Não, isso não foi em tom de afirmação. Eu fui feliz em algum momento da minha vida? - Melhor, melhor assim. Embora os pássaros rompam madrugadas, embora haja sempre um novo sol, sou eu aqui, sempre solitário, sempre voltando pra casa. "Formosos são os pés daqueles que anunciam"... que tudo anda aos tropeços. A vida, na verdade, não passa de um amontoado de gente tropeçando nos próprios pés. Cadarços desamarrados: sentimentos quaisquer. Mas há os que usam suas muletas e fingem não tropeçar. Apenas mancam. Degredados - é o que somos. Mesmo assim as manhãs continuam a nascer, os pássaros  a cantar, os carros a correr e minha vida prossegue, perdida em si mesma. Volta para casa: sempre para um abrigo em que eu imagine estar seguro das intempéries do mundo. Imagine. Talvez a grande realização dessa minha vida seja a paciência em continuar vivendo, apesar de todos os pesares, que são imensos. Mas, saiba, peço perdão pelo meu tom pessimista. É que hoje eu acordei tão só. Mais só do que eu merecia. Eu sei que poderia pedir exílio. Sei, também, que talvez você me ouvisse, caso eu gritasse, onde quer que estivesse. Mas eu me guardo no nó da garganta. E contemplo esse dia que nasce, contra a minha vontade, renovando possibilidades de acertos ou novos erros. Hermético demais, você pensa (ouço de longe teus pensamentos. Farfalham em mim, tão próximos que quase posso tocá-los. Mas não. Deixarei que o som se propague pelo vácuo do espaço. Esse som inaudível. Esse espaço do meu corpo península, tão distante de qualquer continente, tão vazio de gente, tão fechado para visitas, selvagem e desestruturado. O triste é saber que o som sempre vai se propagar pelo vácuo e vou sempre ouvir seus pensamentos, sejam quais forem, de onde vierem ou o que queiram dizer. Mas não vou interpretá-los. Que se choquem no meu corpo absurdo, que vibrem minha carne cansada, que sejam ruídos intraduzíveis, acordes e ritmo que meus ouvidos sempre desconhecerão. Ouço de longe teus pensamentos, ecoando em mim como nódoas ou brotando em mim, mesmo que ainda não seja primavera, mesmo que o inverno insista em sentar e esperar pelo café) e talvez tenha razão. Talvez sejam apenas minhas considerações contraditórias. Talvez seja eu, sozinho, esperando o ônibus, na tentativa de voltar para casa, enquanto um pássaro cruza o céu e anuncia a alvorada. Enquanto o sol agiganta-se sobre o horizonte e cobre construções. Eu fui solitário em algum momento da minha vida. Talvez tenha sido sempre, mas sempre não é todo dia. 

Agli Olio

o que a noite nos reserva? não, o que a noite te reserva? não. não responda. reservamos um lugar, algum lugar, no instante presente. eu peço com os olhos, você entrega com tuas sempre prontas perguntas. anuncio com a boca, você entende com teus sempre sinceros olhos. lá fora não há muito: um pouco de vida. uma noite quente. tempo suspenso nas árvores que fingem descansar. e aqui dentro eu penso. aqui dentro som e luz - aqui, dentro de mim. são horas da madrugada, as lâmpadas do poste revelam algumas coisas. nós nos revelamos muito. abaixe o fogo/aumente o som. But if you never try, you'll never know. o que descobrimos nessas todas expedições, como carregamos nossas bandeiras e as fixamos por aí. você percebeu just what you're worth. e sou eu a te explorar e você a me deduzir. é alguma noite marcada pelas inúmeras diferenças astrais, mas pela proximidade dos nossos tão bobos sorrisos. estamos aqui e a vida brinca na fumaça do cigarro. aqui, enquanto lá fora pode haver o anúncio da terceira guerra mundial. enquanto lá fora nascem e morrem milhares de pessoas ao redor do mundo - mas só te olhar me basta. são tuas cores, talvez. o gosto dos teus gestos, quem sabe. o tempero das tuas palavras. o que nosso jeito nos reserva? teus por quês, minhas indecifrações. nossa mansidão. nossos copos. nossa voz reverberando pela sala, algum refúgio nessa noite. tão noite,  tão tarde e vejo longe o dia que virá. preciso ir. peço que me cante: lights will guide you home, and ignite your bones, i will try to fix you... porque eu volto. 

Manhã, tão bonita manhã.

É uma manhã insuportável, como todas as outras - a diferença que essa é uma manhã insuportável de domingo, o que a torna mais insuportável ainda. Manhãs de domingo me cheiram à pecado. Pecado e redenção: incautos  lotam igrejas e quaisquer estabelecimentos que prometam salvação dessa vida medíocre. Eu assisto, apenas. Minha redenção é o copo de vinho - tomai todos e bebei - que me faz esquecer desse domingo e dessa coisa toda que eu vejo pela janela e não participo. Dessa missa que não comungo, desse culto à qualquer coisa que pareça "boa". Acordo cedo justamente para poder passar o dia inteiro reclamando da vida, do preço do cigarro, das condições análogas em que me encontro, das minhas impossibilidades, da falta de alguém para quem eu possa dizer "caia fora da minha vida". Aí me surgem os de sempre, os testemunhas de jeová, que perguntam se conheço a palavra de deus. Se quero ser salvo. E aí pergunto se eles tem um maldito diazepam, porque a vida anda complicada e essa crise de sentir o mundo tem afetado, inclusive, minha vontade de beber. Eles se assustam, se incomodam, dizem que há uma única verdade, um único caminho e penso "sim, o caminho da minha cama". Dou as costas e os deixo sozinhos, não me interessa o que falem nessa manhã pecadora e insuportável de domingo. Volto pra cama, mas, por deus, é preciso ligar esse maldito som, porque sem música tudo fica pior ainda. É uma rádio, uma dessas rádios imbecis, com músicas imbecis, com gente imbecil e um timbre de voz mais imbecil ainda. Mas toca aquela música: dói em mim saber que a solidão existe e insiste no teu coração... Penso que a babaquice cresce igual formiga nesse mundo, e são resistentes - as formigas e os babacas. Por isso não sei onde tudo vai parar e odiaria o mundo muito mais, se isso não atacasse minha gastrite. O que me alivia é saber que ainda tem bastante vinho na garrafa, que hoje é um maldito domingo e que não precisarei fazer absolutamente nada. Até você chegar e destruir minha vida. Até você chegar e vir com esse papo de que está tudo bem, de que somos um casal lindo, de que vai ficar hoje comigo e eu acredito, eu sempre acredito até o momento em que é você quem diz "caia fora da minha vida" e eu fico devendo essa pra mim mesmo. Fico pensando quando será "a minha vez", mas nunca acontecerá, porque quando penso em te mandar à puta que pariu, você volta com esse jeito doentio, me trazendo uísque e um lucky strike (meu deus, como anda caro!) aí eu preciso aceitar, aceito e até penso que realmente nos damos bem, que nos gostamos, que você nem é tão filhadaputa, ou sou eu, também, muito filhodaputa. Mas você não chega, nem chegará, porque está por aí, se divertindo com qualquer cara, ou qualquer garota, isso há muito tempo, quantos anos fazem? tanto faz. O que importa é que te sinto tão próxima, me importunando tanto, que nem consigo te mandar embora, porque você já faz parte de mim, como a maldita dor de cabeça, a gastrite e o que nomeamos amor-próprio.

Móvel.

Depois de um longo dia de trabalho, chego em casa e me encontro no espelho, nos móveis dispostos pela sala, no uísque - ainda sobre o sofá - que me faz relembrar a noite passada. Vejo, com certa satisfação, que tenho uma vida que, apesar de miserável, ainda não é completamente desastrosa. Então me sento no sofá que ainda não terminei de pagar. Não que tenha sido caro, penso - em tom de desculpa, mas é que tudo andou muito difícil e eu precisava ter às pressas algum móvel que estivesse além da média ordinária, para quando recebesse visitas elas reparassem no quanto parece que minha vida anda melhorando. Por conta disso, fiz questão de pintar a sala, trocar os móveis, e pôr um espelho na parede que dá de frente para a porta: sim, quando se entra em minha casa a primeira impressão é a de que estamos revelando nossos íntimos, nos expondo. Alguns, ao abrir a porta e se verem no espelho, se recusam a entrar e dizem, simplesmente, "preciso ir", com aquele nó na garganta, típico das pessoas que nunca prestam atenção em si mesmas. Não importa. Quando chego, após me olhar no espelho, me sento no sofá, alcanço o copo de uísque e a garrafa - lembranças, sempre, da noite anterior - e me ponho a pensar nessa vida ordinária que levo. Não casei. Não escrevi livro. Não plantei árvores. Em compensação bebi demais, menti muito e fui amante de mulheres da vida. Enquanto penso - e muito penso: no trabalho de hoje e de todos os dias, esse trabalho de merda, mas que me garante um certo dinheiro, no trânsito parado, nas pessoas que estão sobrando no mundo - aqui, nesse sofá, que dá de frente pra sacada, a mesma sacada a qual já quis que fosse a minha algoz, a sacada que está sempre aberta e me permite que eu vá até ela e que rompa o espaço e tente voar, a qualquer momento da minha noite (afinal, durante o dia é preciso trabalhar), nesse sofá de couro, que custou mais da metade do meu salário, sofá que combina com as cores da parede, do abajur, nesse sofá onde realizo meu rito diário de sentar, preparar minha homilia de pensamentos sobre o dia, onde me sirvo dessa bebida única e redentora, nesse sofá de três lugares, em que me sento, todos os dias, no assento do meio, porque me dá a visão do apartamento da Marcela, aquela que sempre amei em segredo, mas que é uma completa idiota, aqui, nesse sofá, vejo Cristina se aproximar. Cristina vem tão negra como a noite lá fora. Ela se escora um tanto na parede, e vem, dengosa, aninhar-se no meu colo. Isso não acontece todos os dias. Às vezes ela fica, também, na sacada, a olhar para a vida, a pensar não sei no quê, e eu nunca saberei o que ela pensa - a gente nunca sabe, de fato - Cristina se aninha em mim, respira tão profundamente sempre e está calada. Dispenso o copo de uísque, dedico meus carinhos à ela e canto, lentamente: mansidão no peito trazendo o respeito que eu queria tanto derrubar de vez... pra ser teu, talvez. Pra ser teu, talvez... Enquanto isso, olho para o apartamento de Marcela, de luzes apagadas, de placa escrita "aluga-se" e penso que a vida poderia ser mansa, como um gato de casa, para que eu pudesse afagá-la, como afago agora Cristina. Dormirei aqui no sofá, como todos os dias, sem mesmo tirar a roupa de trabalho, e tentando sonhar... E quebrar as cercas que insistimos tanto em nos defender...

Serão

Escuto teus passos. Pé ante pé. Mas não os ouço agora de completa chegada. Teus passos partem. Teu corpo foge. Ainda nos resta tempo: logo o inverno chega e precisaremos nos recolher. Para onde? O que éramos? Você não escapa das minhas mãos. Sou eu quem te solto, sabe-se lá por quê. Dá-me tua mão, implora meu íntimo, mas meu corpo sonega minhas vontades. Você não é quem deveria ser - penso. Agora, me responda única e sinceramente: Para onde vão teus passos senão para a distância marcada dos teus gestos?  Enquanto falo - sozinho - ela me olha, escondida atrás da minha confusão. Talvez ria do meu jeito indeciso. Talvez pranteie. Não, decerto não chorará. Apenas me olha, escondida atrás da minha solidão. Solidão. Confusão. Alguma coisa nesse entremeio. Há uma certa ilusão (essa era a palavra que sempre busquei quando junto a ti) nos nossos modos. Você é minha pedra no sapato. Um sapato que insisto em calçar. E eu, o que sou para ti além de pedra atirada, que você pretensamente descarta? Não me creia abismal. - Ela continua a me olhar de um lugar seguro, tão segura de si. Já não percebo: afasto-me de mim mesmo, campo de percepção limitada. É tarde demais para tais considerações. É tarde demais também para revogações, investimentos, projetos. É tarde, mais tarde reavaliarei todas as tuas presenças. Mas você não perceberá, ocultada pelos meus indelicados pensamentos. E então você virá, como vem a manhã. Virá com o findar de estrelas. Virá colorindo ocasiões. E logo que te veja silenciarei minhas rotas. Calarei em minha boca um murmúrio: tua insinuação: hóstia às minhas orações. Ela chega. Não interroga. Pensa, apenas. Sorri, talvez. E eu, o que farei com esse tanto de quinquilharias que não despejo da cabeça? Ela está. Eu não. Sou eu quem agora parte à procura do seu esconderijo. Sou eu quem agora a observa da lonjura imposta pelo tempo. E pranteio, talvez. Mas canto, mato e vivo. Fora de ti, intercalado pelos nossos olhares complacentes, canto. Crown and anchor me, or let me sail away...



Blue

Um vinho, um jazz, uma macarronada. Preparei o cenário. Especial, como deveria ser. Então você chega. Eu digo "sente-se", você, sorridente, se senta. Somos belos. Aristocratas. Ouvimos músicas e nos deliciamos, os lábios tocando a taça de cristal, a luz, "olhe essa luz, meu bem", nossa troca de olhares. Ambos, sentados à mesa, fitados pelas velas, doce calor, o clima romântico. Jazz. A Ella Fitzgerald. Tomo suas mãos. Entrelaço-as com as minhas. Você me olha, surpresa."Mais vinho, amor?". Você sorri. Somos jovens. Como num filme, gestos marcados, câmera ao fundo, nós, só nós dois. Nos amamos. Você, quando me toca, me faz outro homem, novo homem. Somos artistas. De repente, cá estou. Não há ninguém além de mim, tomando um suave porcaria em copos de vidro. Co-pos-de-vi-dro. Em frente à tela do computador, prometendo a mim mesmo que "amanhã será diferente", que eu "serei mais homem" e te direi aquilo que eu "tenho tanto ensaiado pra dizer". Outra desculpa. Não há nada pra lhe dizer, além de "oi, tudo bem?...Estou bem. Novidades?... Também não tenho". Sou só eu e essa casa vazia, essa música brega, indecente, que me toma os ouvidos, e eu gosto. Eu me delicio com essa decadência. Me delicio com a sua antipresença, sua onipresença que me incomoda, seus gestos doentios, sua auto-estima patética. E essa lâmpada incandescente que insisto em manter apagada, pra não revelar nada. Lá fora, aquela luz alaranjada, triste, das vias públicas. Eu fico: Olhos sorrateiros, peito em soslaio, cabeça doida, rodando doida, pensando em você, na outra você, e na outra, nessas horas quem é que garante que somos fiéis a um sentimento idiota? Somos todos amantes de todas as mulheres. Um gole no gargalo! Um gole à moça que passou hoje na rua e que sequer saberei o nome. Um gole ao ex amor, ao futuro, a tudo que não vale a pena! E essa música suja entrando nos meus ouvidos. Essa arritmia transifigurada em risadas compulsivas, mentais apenas e o céu lá fora, imenso. E a casa vazia, imensa. 

Partirei.

Outono

Também eu vinha descorado pelo modos. Num amarelar outonal, me perdia entre o tom sabido do horizonte quase inalcançável e o meu espírito ocre, que empalideceria rápido - vontades caindo no absurdo da minha parcimônia. O verão que fez em mim, de chuvas cotidianas, partiu em direção aos meus olhos, para derrubar as réstias de água através deles. Agora eu desfolhava. Caíam de mim os mistérios, os dísticos, os breves, os cálidos. Era eu avermelhando, num vermelho tardio. Era eu amarelando, num amarelo conformado. Era eu murchando, caindo de mim, secando à espera de um inverno que me calaria os cânticos, que me apunhalaria, inverno dos tempos, corpo, sonhos. Era o céu de um azul vagabundo, de nuvens entediadas, que me resguardava e me cobria o corpo que se desintegrava lentamente. Uma folha cai: é um sonho passado desfeito. Outra folha: um amor que se vai, conduzido pelo vento. Eu permaneço, meu corpo não rompe o amanhã. Tenho formas e gestos. Tenho gritos e acalantos: Minha boca arde num alaranjado fim-de-tarde. Quer atravessar a noite-invólucro mas os meus meios se enlevam ao balbuciar de estrelas cansadas. Sou todo outono, serenando as paixões contidas em minhas seivas. Para onde iremos? Vejo-te, canção em ostinato aos meus ouvidos. Sonho-te, à brisa que me entrego receio teus sinais. Para onde iremos? Sujeitos às condições do tempo, enfrentaremos esperançosos esse estio de motivos e circunstâncias. Para onde iremos? Já não será possível saber. Cinjo o teu silêncio e espero: hoy te vi, mirando rosas. Hoy te vi, tu nunca dices que hay en ti...

Dissonância

Não haveria motivo para tanto: Era um pouco de alguma coisa que se desvendava inerte. Não, era possível que as coisas todas ficassem como estariam. Em algum canto empoeirado há algo de novo te esperando, mas você não vejo. Roda pela sala, danço, em busca dos tantos mistérios escondidos na lâmpada quente, nos fios que conduzem energia, lá íamos. Iam nossas interfaces, nossos subterfúgios. E você se perdeu. Dentro de si mesma você me perdeu. Tantas vezes eu tentei outra postura contigo. E no fim das contas éramos apenas nós dois: Absurdos em nós. Mas você me crê falso, e eu te creio arredia. Ambos, perdidos dentro de mim, de você. Já agora não poderíamos mais nos dissociar do hábito de uma outra face. Você, quando assumia a minha e eu quando assumia a sua. Mas você assumira a sua, e eu já me perdia, por que quem assumiria a minha? De repente penso no que poderá me acontecer se eu te acontecer. Penso no que poderá nos acontecer se nos perdermos, assim, como quem perde as chaves de casa. Suplico um tanto de abandono de mim, para que eu seja em você. Sugiro um tanto de desprezo de você, para que seja em mim. Mas tudo se transita. E se perder um pouco é um desejo da minoria de todos. Eu já me perdi em explicações. E você já me perdeu em qualquer outra coisa, mesmo não tendo me perdido aí, dentro de você. Eu já te perdi para a outra situação. Eu, já te entregue às moscas, espero tua renovação arbitrária. Coisa de um tempo que não virá mais, pois quando veio já o enxotamos. E de tudo isso que poderia ser, acabou s'ido.


Pequena nota amargurada sobre uma questão importante e decisiva

Uma ideia estúpida, certamente. Não há nada mais evidente, ecumênico e piedoso que uma ideia estúpida. Pensava: Os "cogitos-ergo-sums" que tanto ouvimos por aí devem valer de algo. "É do Shakespeare?", ela me perguntava. "Descartes", eu dizia. Tanto faz, ela retorquia. Entre um cigarro e outro, um nome a mais ou a menos pro seu índice de nomes estrangeiros não era nada. O que importava pra ela era sempre o intervalo entre um cigarro e outro, em que poderia questionar, apontar ou excitar-se com algum conhecimento que eu poderia ter. Prévio, óbvio: Iria sempre preparado para um embate filosófico, no qual eu sempre ganharia e ela, maravilhada com "tanto conhecimento", me diria apenas: - muita filosofia e pouca experiência.... E riria, desatinada, zombando da minha erudição forjada, da sua descompostura e de nós, tão graves e tão íntimos. Numa das ocasiões - breves ocasiões - em que fui desarmado, esperando nada além da fumaça, da noite, dos sorrisos simpáticos e da companhia que há muito eu julgara "única que me entendia, apesar de tudo", foi que tive a tal ideia estúpida. Não quis contar-lhe. Ela palpitaria, dissimularia e por fim romperia nossa tão dispendiosa amizade. Acontece que já me atravessava os sonhos e começava a importunar, inclusive, minha vida social essa tal ideia. Procurei auxílio nos planos que eu havia feito, desfeito e refeito: Sem resposta. Procurei auxílio em tudo o que me faria agarrar-me à terra, quem sabe ao céu, num plano divino desordenado, compulsivo e desacreditado, sobretudo: Sem resposta. Restava, após verificar minha lista de "a quem recorrer", ela, afinal, era a única ser existente no mundo que me compreenderia. Ensaiei como contar-lhe desde o princípio: motivos, formas e, principalmente, porque seria importante para ela que isso acontecesse. Ensaiei em vão. Ponderava, no fim das contas, todas as coisas pelas quais já havíamos passado. Era uma ideia absurdamente estúpida, e entregá-la a ela seria como dar cravos à quem merece rosas. No fim são flores, pensei, ambas flores, mas não (tardiamente descobriria que aquela ideia poderia ter me salvado de tantas outras coisas, mas no momento me calei): Seria necessário planejar mais. Tantas ideias estúpidas já haviam me passado pela cabeça. Era comum que eu as tivesse, inclusive. O que me angustiou foi essa em particular, não por ser meramente estúpida, mas porque mudaria tudo. Afastei-me, então. Uma ausência suspeita fez com que ela me procurasse, claro: Éramos íntimos. E como não pude tirar essa ideia da cabeça, e como, por fim, aceitei o fato de que só ela poderia me compreender, resolvi contar. Essa tal ideia era simples: executaria-a e pronto. Seria bom pra ela, eu dizia, mas ela não compreendeu. Depois de um momento incerto de reflexão olhou em meus olhos, como nunca teria olhado, ou como olharia futuramente para um retrato meu qualquer, e disse, certeira: - Adoro aquele filme da Bardot, pra mim que realmente se amavam.

Conversa não dita

Me fala sobre deuses e minha boca tem um palpite sobre a sua, que me fala sobre deuses e penso: deveria dizer-lhe tudo o que eu sempre pensei, mas me calo, sempre me calarei porque não sei como dizer tudo o que tenho mesmo a dizer e talvez seja pouco, talvez seja muito, talvez nem seja o que eu acho que deveria dizer... há uma certa confusão nas minhas coisas, todas meio "caotizadas" pela minha interpretação da realidade simples e eu quero complicar, eu digo, quer dizer, eu tô dizendo que adoro complicar as coisas porque ver só o lado simples me faz menos intenso talvez, não sei bem o que quer dizer "talvez" nesses atuais contextos de produção monologal porque preciso de coisas certas, não extremistas, mas certas, você sabe, sabe que eu tenho um monte a dizer mas me calo e eu sei que você gosta desse meu silêncio morno, silêncio bobo, aliás, coisa que sei bem fazer, aliás, é a única coisa que sei fazer e penso: deveria dizer-lhe tudo o que eu sempre pensei, mesmo sobre isso, um assunto tão banal e eu me perco olhando o céu, aquele mesmo céu, lembra? aquele céu que tá aí, céu de todos os dias, céu talvez claro, talvez escuro e nesse momento somos apunhalados por essa coisa chamada pontos de vista, não, não é que eu não goste de não pensar diferente, é que diferir às vezes é necessário, e necessário é uma palavra pesada, não falemos sobre isso, falemos sobre o que eu pensei em te dizer, que não é pouco, é uma coisa que tá aqui, meio entalada na garganta, meio vontade de continuar sendo isso tudo, ou não ser nada daquilo que eu deveria ser só pra entrar em contradição, aliás, eu sei que você gosta desse silêncio bobo, aliás, é a única coisa que sei fazer: pensar em dizer aquilo que eu não disse ainda que é o que eu sinto e o que eu sinto é uma vontade absurda de ser feliz, entretanto, no entanto, só penso em dizer, porque não disse de fato não, não vá embora agora, não, espere, não espere, não fique, não deixe que isso tudo se perca dentro de você porque essa coisa deve voltar a mim de alguma forma nem que seja de uma forma que me fale sobre deuses e minha boca tem um palpite sobre a sua.

Sob um céu de promessas

- o que eu posso fazer por você?

Talvez você possa dizer que me ama, que sente minha falta, que sem mim é difícil, ou não... Não, não diga nada. Segura minha mão. Segura agora. Segura forte! Segura e me olha como você olha quando quer dizer algo e não diz. Só não diz porque não sabe mesmo o que dizer, ou não diz porque quer que eu descubra. Não, melhor não. Melhor evitarmos essas coisas que a gente sente dentro da gente. Melhor mesmo é a gente se fingir de triste, triste ou feliz, tanto faz, mas o melhor é fingir. Finge pra mim, finge que tudo vai dar certo e que essa coisa toda vai bem. Não, não tô te dizendo pra mentir pra mim. Não minta. Sim, é melhor. É melhor que você viaje. Sim, é melhor. É melhor que você publique fotos em suas redes sociais, com legendas do tipo "eu me divertindo muito em porto de galinhas", ou "tô adorando essa cidade" e, ao fundo, qualquer cenário do tipo Angra dos Reis, ou qualquer lugar paradisíaco, desses que você gosta, que faz questão de dizer que gosta. Depois você volta. Volta e não diz que voltou porque sentiu minha falta. Volta e diz que "as oportunidades não são tão boas quanto aqui" e esse blablabla todo que eu mesmo vivo repetindo. Volta e não me conta, pra eu te encontrar por aí, nesses mesmos lugares que a gente insiste em frequentar. Não, melhor você me mandar uma dessas mensagens bonitinhas, dessas que você manda quando quer dizer alguma coisa e não pode perder o momento. Talvez, se você mandasse... talvez, talvez tudo seria diferente. Não seria. Eu sei que não seria. Agora, no playlist toca Aquellas Pequeñas Cosas. Ela está muda. Acendo um cigarro. Ela olha. Acho lindo o jeito como você segura o cigarro entre os dentes. Não temos mais assunto. Brincamos demais. E então ela se balança, doce balanço, uma dança silenciosa. De olhos fechados, um sorriso discreto, desses de canto de boca, ela sussurra. Eu já não escuto. Ninguém escuta.Como hojas muertas que el viento arrastra allá o aqui, que te sonríen tristes y nos hacen que lloremos cuando nadie nos ve...Ninguém escuta.

Texto Desesperado

Você diz, diz com esse ar, todo esse ar, essa pompa, essa coisa que você tem e eu não sei de onde tira essa coisa que te sufoca, mas você diz "eu preciso voar" e eu digo, claro, claro que eu sei que você "precisa voar", todo mundo precisa até mesmo você "precisa voar", "precisa voar" pra tão longe eu te pergunto e você diz apenas que "eu preciso voar" eu sei que eu preciso também, mas não assim, talvez um dia eu voe, talvez um dia eu... você sabe bem sobre isso sabe, sabe? será mesmo que você sabe tanto sobre tanta coisa e eu continuo te dizendo com esse ar, toda essa pompa, essa coisa que eu tiro daqui de dentro que eu -tiro no escuro, e você ainda com esse temperamento que eu nego tanto, evito tanto e no entanto volta sempre a enfeitiçar e eu já não sei mais como voar embora tenha tantas asas, tantas quantas asas tenho já não lembro? Não lembro, lembro apenas de você me dizendo que todo mundo partirá e eu não dizia nada e eu não parto não faço nada, fico esperando você "voar", lembra que eu te disse que entre voar e voltar a diferença é mínima? Então cada volta é partida eu sei, você disse, eu sei que eu estava indo partindo saindo de você e eu dizia, você dizia, eu dizia que sabia mas não sabia e é verdade, você não sabia porque você só pensava que deveria dizer "eu preciso voar" e não voava e não voltava e não partia porque parti eu penso, por que parti se eu ainda poderia esperar o findar dos tempos mas não eu não poderia dizer "preciso voar" e no entanto é tanto e tonto que eu lhe escrevi essa última elegia avassaladoramente desesperada para confessar pra você que eu não sei mais, você diz, eu não sei mais o que pensar sobre você e eu digo apenas não pense, não pense nada porque quem pensa demais acaba sentindo de menos e eu te disse que você "precisa voar"?

Uma noite clássica

No player, ária na quarta corda. Ela está nua sobre a cama. Bach ficou cego, eu digo. Ela, de bruços, com a cabeça virada para a parede, não tem qualquer tipo de resposta. Eu considero, eu digo, Bach o melhor, melhor que Handel, que também ficou meio cego... Nua, sobre a cama, de bruços, vira a cabeça para mim. Sorri ironicamente. A luz ajuda: é uma imagem barroca. Bach ajuda: o clima é barroco. Estou de pé, próximo à janela. Sobre a cômoda, meu maço. A vantagem de deixar a porta do banheiro entreaberta é que não fico tão perdido por aqui, penso enquanto pego o maço, enquanto olho praquela imagem barroca. Vou até a janela. Destaco um cigarro. Eu deveria parar, penso. Você viu meu isqueiro? interrogo. Ela se levanta, sem pressa. Dada a complexidade do momento, não há resposta. Está absolutamente bonita sem roupa. Não importa. Logo encontro o isqueiro: estava no bolso da minha calça. Por que você se veste tão rápido? Pergunta. É uma boa pergunta. Mas não a respondo. Acendo o cigarro. À janela, vejo a cidade. Luzes, carros, vida amarga. A pergunta é boa, mas prefiro fumar e pensar nesse cubículo, nesse terceiro andar, na falta de grana. Me pergunto agora do porquê dela estar aqui, nua sobre a minha cama, nesse lugar de três peças. Ela se levanta e me abraça por trás. Odeio abraços. Me viro. Por que será que não odeio tanto os seus abraços? Olho-a nos olhos. É a primeira vez que olho nos olhos de alguém. Aprendi que não se deve olhar diretamente nos olhos: demonstra subserviência. Bicho com medo olha nos olhos. Ela tem olhos lindos. Tento beijá-la, mas vira o rosto. Está brincando comigo, claro que está. Desabotoa minha camisa. Estremeço. Passivo, deixo que retire minha camisa. Por que sempre me visto tão rápido? Por que deixo, irrelutante, que me tire a camisa? Ela a veste. Está brincando comigo. Sorriso irônico. Bach é um merda, profana, Ray Charles também era cego e muito melhor... Suingue, gato, eu prefiro homens 'hot', dispara com sua voz, essa voz desafiadora e eu me emputeço. Eu não sou um cara quente. Ela prefere outros, mas está comigo. Penso em perguntar o motivo para que esteja usando minha camisa, completamente seminua. Acendo outro cigarro. Tira da minha boca e traga. Você é o cara da minha vida. Não, ela não diz isso. Esperava que dissesse. Agora me beija. Eu permito. Tira minha calça. Eu permito. Me arrasta para a cama. Está brincando comigo. Sabe jogar. Sorri. Diz que me ama. Eu estremeço. Ela prefere Ray Charles. Não há o que responder.

Qualquer Epifania


São duas horas no relógio quebrado. O frio brinca na tua pele desagasalhada. Pela rua, carros passam. Voltar para casa é o clichê. Por todos os lados, gente: riem na madrugada em neblina. Pergunto-nos: o que será de nós?  É madrugada e bons ventos te levam. Na boca em vez de um beijo, um chiclé de menta. Você volta para casa. Clichê. Faz frio e marca duas horas no relógio abandonado. Peço que te esqueças. Você não pode. A cidade embarulhada, humana em demasia, te recorda de pequenos feitos. E aquela música te pesa aos ouvidos. E a mochila te assombra os ombros. É madrugada e os estabelecimentos se fecharam para o descanso. A porta range. Silêncio. A casa vazia me impede o grito. Eram duas horas no relógio perdido. Quantas serão até amanhã? Meço um sussuro e um café. Perdi. Sinto que perco sempre. Meus olhos, peregrinos inconfidentes, me levam para casa.
É tarde, amanhecerá.